Mostra em NY exibe o método de criação de Henri Matisse

'Matisse: In Search of True Painting' prova como a pintura do artista resultava de processo complexo em busca da essência

Tonica Chagas - especial para o 'Estado',

03 de dezembro de 2012 | 00h38

NOVA YORK - Por ele ser um dos maiores maestros da cor, é surpreendente saber que para Henri Matisse (1869-1954) nunca foi fácil pintar. Ele sempre reavaliou e repintou seus quadros, repetindo composições para comparar efeitos, em busca da "pintura real", como explicou numa carta a Amélie, sua mulher. Matisse: In Search of True Painting, exposição especial que o Metropolitan Museum de NY abre nesta terça-feira, 04, mostra a necessidade dele em progredir, metodicamente, de uma pintura para a outra, criando pares, trios ou séries. Esta maneira de pintar não é exclusiva de Matisse mas, em seu caso, é impressionante. Como sublinha Rebecca Rabinow, organizadora da mostra no Met, o processo de criação não era um meio para ele chegar ao que pretendia, "mas uma dimensão da sua arte tão importante quanto a tela terminada".

Essa dimensão ficou praticamente desconhecida até dezembro de 1945, quando o pintor apresentou seis dos seus quadros mais recentes na inauguração da Galerie Maeght, em Paris, rodeados por ampliações de fotografias tiradas ao longo da evolução deles sobre a tela. Matisse começou a usar esse método mecânico no início da década de 1930, substituindo os duplos, trios ou séries com que trabalhou por cerca de 20 anos. Os óleos sobre tela A França (1939), O Sonho (1940) e Natureza-Morta com Magnólia (1941) estão em destaque numa sala que recria a exposição na Maeght.

O Sonho, que ele descreveu como "um anjo adormecido sobre uma superfície violeta - o violeta mais bonito que já vi", foi uma das pinturas mais estimadas por Matisse e ele se recusou a vendê-la até o fim da vida. As fotos feitas entre janeiro e setembro de 1940, enquanto ele trabalhava no quadro, mostram como este foi radicalmente transformado. No início havia plantas, depois uma natureza-morta sobre a mesa; a certa altura, a folhagem ocupou só uma barra no topo e, no fim, os acréscimos desapareceram, ficando apenas o arranjo simplificado de formas e cores em torno do anjo.

As fotos, que até então só eram conhecidas por alguns poucos colecionadores e marchands, dissiparam a noção de que Matisse pintava espontaneamente, comprovando como sua pintura resultava de um processo complexo. "Neste ponto, acho que ele sentiu ter conseguido tudo o que podia na pintura", diz Rebecca. Então ele parou de pintar e foi "desenhar com tesouras", como dizia, dedicando-se aos recortes de papel que produziu nos últimos anos de vida.

As 49 obras que se sucedem em Matisse: In Search of True Painting, aberta até 17 de março, permitem acompanhar as alternativas que ele buscava para questões de representação, do papel da cor ou sobre o que é uma pintura terminada. Inseguranças, dúvidas e soluções transparecem quando os quadros são vistos em pares e trios, recurso usado desde os primeiros que ele pintou, como Natureza-Morta com Compota e Frutas e Natureza-Morta com Compota, Maçãs e Laranjas, ambos de 1899, que abrem a exposição no Met.

Como treinamento acadêmico ao deixar a carreira de advogado para seguir a de artista, Matisse copiava antigos mestres da pintura que via no Museu do Louvre. Mas também se interessava pela pintura contemporânea exibida nas galerias parisienses e tinha curiosidade particular pela união de forma e cor de Paul Cézanne (1839- 1906) e os efeitos luminosos do pontilhismo de Paul Signac (1863-1935). Entre 1904 e 1905, evocou Cézanne com pinceladas fortes e diagonais de verde e violeta em Natureza-Morta com Porrón I e criou Natureza-Morta com Porrón II em cores vivas e efeitos derivados de Signac. "Mas ele estava mais interessado em transcrever as próprias sensações do que seguir este ou aquele estilo", salienta Rebecca Rabinow.

As duas versões de O Jovem Marinheiro, que ilustram os cartazes da exposição e as capas do livro lançado com ela, são analisadas pela curadora como experimentos de Matisse com a deformação. Ambas foram feitas em 1906 numa vila de pescadores do sudoeste francês e o modelo foi um adolescente que teria posado para o pintor apenas uma vez. Na primeira versão, ele assentou a figura na tela com linhas de lápis finas e repetidas, traçou-as com tinta preta e preencheu os campos com pinceladas de cores vivas; deixou a tela vazia em vários pontos e aplicou tinta fina em outros para enfatizar duas dimensões.

"Isso já era muito avant-garde e chocante para a maioria das pessoas, mas o que mais assustou até mesmo os que sempre o apoiaram foi a deformação e a escolha de cores na segunda versão", aponta Rebecca. A simplificação da forma e o conceito de deformação relacionado a ela intrigavam a vanguarda parisiense no início do século 20 e Matisse "tentava simplificar a forma à essência, como vira na arte das culturas africanas", relaciona a curadora. Van Gogh também seria referência nesta versão, principalmente pela combinação do rosa para o fundo da composição e do verde para a calça do garoto - a mesma de L’Arlésienne, pintada pelo holandês entre 1888-89, que Matisse quis mas não conseguiu adquirir. O colecionador Leo Stein contava que, ao mostrar-lhe as duas versões e perceber sua surpresa diante da segunda, o pintor teria dito que esta era cópia do seu primeiro quadro feita pelo carteiro da vila.

Curadora do Departamento de Arte Moderna e Contemporânea do Met, Rebecca estuda a obra de Matisse há mais de 20 anos. Ao organizar uma exposição sobre o impacto na arte moderna provocado pelo patrocínio da família Stein (Gertrude, seus irmãos Leo e Michael, além de Sarah, mulher do segundo) a artistas no início do século 20, decidiu investigar por que Matisse estava fazendo duplos naquela época. Daí surgiu esta exposição, elogiada como uma das mais instrutivas sobre o pintor francês ao ser exibida no primeiro semestre deste ano no Centre Pompidou, em Paris, e no Statens Museum for Kunst, de Copenhagen.

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