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Mostra em Nova York comemora o 150º aniversário do pintor Gustav Klimt

'Gustav Klimt: 150th Anniversary Celebration' fica aberta ao público até agosto na Neue Galerie

Nathalia Lavigne - ESPECIAL PARA O ESTADO,

28 de maio de 2012 | 09h37

NOVA YORK - Por entre folhas de ouro e o fundo com desenhos de mosaicos bizantinos, que fizeram da tela Adele Bloch-Bauer I (1907) a obra mais importante do austríaco Gustav Klimt (1862-1918), estão gravados também episódios emblemáticos do século 20. Só o resgate da pintura, roubada pelos nazistas em 1938 e recuperada 68 anos depois em um intrincado processo que chegou à Suprema Corte dos EUA, já envolve temas como as duas grandes guerras e o antissemitismo que aflorou na Áustria ainda no século 19.

Mas a história da obra também passa pela chamada idade de ouro de Viena, quando uma nova elite intelectual, formada por famílias judias como os Bloch-Bauer, ajudou a fazer da cidade epicentro cultural da Europa. Não por acaso, foi entre 1897 e 1907 que Sigmund Freud (1856-1939) escreveu A Interpretação dos Sonhos, o compositor Gustav Mahler (1860-1911) comandou a principal casa de ópera da cidade e Gustav Klimt ajudou a criar um movimento para romper com a tradição acadêmica, a Secessão de Viena.

No ano em que se celebra o 150.º aniversário de nascimento do artista, fatos como esses aparecem no livro The Lady in Gold, da jornalista americana Anne-Marie O’Connor, previsto para ser lançado no Brasil no segundo semestre pela José Olympio. Já o retrato de Adele pode ser visto na Neue Galerie, em NY, na exposição Gustav Klimt: 150th Anniversary Celebration, aberta até agosto.

Ao lado de pinturas, a mostra exibe pôsteres, desenhos e fotografias inéditas de Klimt. Em algumas delas, ele aparece ao lado da estilista Emilie Flöge, amiga e companheira do artista até sua morte, causada por sífilis, aos 55 anos. A seleção inclui ainda estudos (de 1901 a 1907) para pinturas encomendadas pela Universidade de Viena e rejeitadas pelo governo. Mas foi graças a desavenças como essas com a aristocracia que Klimt se aproximou da elite judaica e passou a fazer obras sob encomenda, ganhando notoriedade pelos retratos sensuais de mulheres de importantes industriais da época, como a própria Adele Bloch-Bauer.

Um pequeno grande museu. Criada em 2001 pelo milionário colecionador Ronald S. Lauder como um museu de pequeno porte, dedicado à produção de artistas austríacos e germânicos do período de 1890 a 1940, a Neue Galerie viu sua história mudar em 2006, quando Adele Bloch-Bauer I passou a fazer parte do acervo. “Essa obra transformou uma galeria pequena em um museu conhecido no mundo todo”, ressalta Renée Price, diretora do espaço.

Mas o que atraiu a atenção do mundo para o retrato de Adele, filha de banqueiro e casada com um industrial, não foi só a importância artística da obra. Logo depois de ter sido devolvida aos herdeiros de Adele Bloch-Bauer, em 2006, a tela foi arrematada por Lauder por US$ 135 milhões - valor mais alto já pago por uma obra de arte até então. “Isso também despertou a atenção de pessoas que não estavam exatamente interessadas em arte e queriam apenas ver a obra mais cara do mundo”, conta Renée.

Numa época em que as cifras dos leilões viraram fetiche, a venda milionária da tela e todo o imbróglio de sua restituição transformaram a recepção internacional à obra de Klimt - em relação à popularidade e aos preços. Principalmente porque Adele Bloch-Baur I não foi a única tela de Klimt roubada pelos nazistas e restituída nesse período. Entre 1998 e 2006, dez pinturas e 17 desenhos foram devolvidos para seus donos, aumentando a boa receptividade do artista no mercado. Estima-se que o valor de todas essas obras foi de US$ 400 milhões.

Mas tudo isso também trouxe à tona uma outra discussão: fora da Áustria, qual a real importância de Klimt para a arte? “Ele não foi decisivo para o modernismo. Algo nele envelheceu mais rapidamente em comparação aos outros grandes nomes do século 20”, afirma o crítico de arte brasileiro Rodrigo Naves.

Nos Estados Unidos, sempre houve uma resistência ao artista. Apesar de já fazer parte do acervo do MoMA, sua primeira exposição importante somente aconteceu em 1965, no Guggenheim, quando a tela O Beijo foi descrita pelo Washington Post como “a essência da fraude vulgar”.

Renée Price, que pesquisou como a arte de Klimt foi recebida pelos americanos ao longo dos anos, garante que tais críticas se devem à falta de conhecimento sobre o trabalho do pintor. “A arte alemã e austríaca nunca foram muito populares na América e as duas grandes guerras também não ajudaram muito.” No entanto, essas restrições não atingiram em nada a popularidade do artista. As reproduções da tela O Beijo em pôsteres e camisetas competem quase no mesmo grau com as pinturas de Andy Warhol (1928-1987). No design e na moda, não faltam exemplos de referências tiradas de seus adornos e padronagens. Estilistas como Alexander McQueen (1969-2010), Christian Dior e Carolina Herrera são alguns nomes que já levaram a “estética Klimt” para as passarelas.

Sobre a América do Sul, a diretora reclama que nenhum museu brasileiro ou de outro país vizinho procurou a Neue Galerie para fazer uma mostra de Klimt, o que também pode ser atribuído aos altos valores do seguro das obras de arte.

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