Reprodução/EFE
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Mostra em Berlim homenageia vítimas de trabalhos forçados dos nazistas

Exposição parte de uma perspectiva não exclusivamente judia

Carlos Álvaro Roldán, EFE

28 de setembro de 2010 | 11h36

Os mais de 20 milhões de europeus deportados e submetidos a trabalhos forçados pela Alemanha nazista entre 1933 e 1945 - e a atitude dos próprios cidadãos alemães em face do uso de mão-de-obra compulsória - são tema de uma ampla exposição no Museu Judaico de Berlim inaugurada hoje e que estará aberta ao público até o dia 30 de janeiro.

 

A diretora de programação do museu, Cilly Kugelmann, reconheceu na segunda-feira (27), na abertura da mostra "Forced Labor - The Germans, the Forced Laborers, and the War" (Trabalho Forçado - Os alemães, os trabalhadores forçados e a guerra) que a iniciativa de apresentar os fatos "de uma perspectiva não exclusivamente judia" é pouco habitual nas exposições do centro.

 

Embora as autoridades nacional-socialistas tenham começado a utilizar trabalhadores compulsórios já em 1933, segundo lembrou o curador da exposição, Jens-Christian Wagner, "é a partir de 1942 que a prática se transforma em algo em massa, sobretudo quando a economia alemã fica sem trabalhadores ao ter de enviá-los à frente de guerra".

 

"A maioria das empresas alemãs não teria sobrevivido sem esses trabalhadores forçados", sustentou Wagner, que destacou também que todos os civis alemães na retaguarda tinham consciência de sua existência e viam a exploração como algo "cotidiano".

 

 

Não só grandes empresas como Mercedes Benz, BMW ou Siemens se beneficiaram da mão-de-obra escrava oferecida pelas autoridades nacional-socialistas.

 

Muitos dos trabalhadores foram destinados a pequenas empresas e fábricas ou a propriedades agrícolas, além de servirem como empregados do próprio Exército alemão e ajudar na criação e reparação de estradas, lembrou o diretor da Fundação pela Memória de Buchenwald e Mittelbau-Dora, Volkhard Knigge.

 

Para Knigge, ao falar dos trabalhadores forçados, o número de "mais de 20 milhões" de pessoas "é bastante conservador".

 

Knigge ressaltou que "o contexto racista foi essencial desde o primeiro momento" e que os alemães "não tiveram maiores problemas para criar uma relação cotidiana" com esses trabalhadores compulsórios.

 

O aparelho de propaganda nazista, segundo Knigge, "conseguiu em muitos casos desumanizar os trabalhadores estrangeiros, que eram catalogados como 'Untermenschen' (seres humanos inferiores)".

 

O curador da mostra explicou também que, embora a cada dia os dados devam ser atualizados, calcula-se que os países do Leste Europeu subjugados pelo regime nazista forneceram cerca de 8,4 milhões de trabalhadores escravos.

 

Entre os prisioneiros de guerra, 4,6 milhões fizeram trabalhos forçados, aos quais se somaram 200 mil condenados à prisão.

 

Wagner assinalou que se estima que tenham sido destinados a trabalhos forçados 110 mil judeus, alguns milhares de ciganos e cerca de 1 milhão de prisioneiros dos campos de extermínio.

 

"Para judeus e ciganos, o trabalho forçado era só um passo intermediário rumo à morte", admitiu Wagner.

 

Volkhard Knigge explicou que a exposição tenta evitar "um conceito teatral baseado só na dor ou nas emoções".

 

"Optamos por um conceito visual, sem dramas. Assim, a história conta a si própria através das imagens", detalhou Knigge, que não duvidou da possibilidade de muitos dos trabalhadores que sobreviveram à era nazista terem acabado em campos de trabalho da União Soviética.

 

A mostra tem como patrono o presidente da Alemanha, Christian Wulff, e deve seguir para países como Polônia, França e Estados Unidos, segundo o curador da exposição.

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