Mostra e reedições lembram cem anos de Pedro Nava

Para a maioria dos escritores brasileiros, 1922 foi, sobretudo, o ano da Semana de Arte Moderna de São Paulo. Para Pedro Nava, considerado o mais importante memorialista brasileiro, foi também o de uma revolução não estética, graças à "obtenção da insulina", "a abertura de uma nova era para a Medicina e particularmente para a Terapêutica".Os dois lados da vida de Pedro Nava, a partir de hoje, estarão expostos no Centro de Estudos Murilo Mendes, na Universidade Federal de Juiz de Fora, cidade em que nasceu há cem anos. Reunindo objetos que pertenceram ao escritor e médico - como uma de suas máquinas de escrever e o aparelho medidor de pressão -, a mostra Navalha do Tempo segue até o dia 30 de agosto. Neste mês, também para marcar o centenário de seu nascimento, chegou às livrarias o quinto volume das memórias de Nava, Galo-das-Trevas (Ateliê/Giordano, 512 págs., R$ 45). Nesse volume, entre outros assuntos, é narrado o início de sua carreira, em 1928, quando começa a atuar como médico pelo interior. Também é nele que ganha força o alter-ego de Nava, Egon (formada por ego e ene de Nava), e a narração passa da primeira pessoa para a terceira.Ainda em 2003, os editores prometem a publicação de Círio Perfeito, o sexto volume, e a edição de Território de Epidauro, livro de medicina do escritor mineiro, anterior à sua fase de intensa atividade literária. Para completar, eles trabalham nos fragmentos do sétimo volume das memórias, deixado com cerca de cem páginas quando ele se suicidou, em 1984, que conhecera apenas edições incompletas, que omitiam alguns nomes e informações, como na versão publicada na biografia de Nava escrita pela francesa Monique Moing, A Solidão Passada.Em Juiz de Fora, também estarão expostos os originais de uma carta suicida escrita por Nava em 1975 (ele se mataria em 1984) e uma cadeira que ganhou fama de "fantasma" na família. "Eu tinha altas desconfianças dessa cadeira", conta Paulo Penido, herdeiro de Nava e organizador de O Anfiteatro - Textos sobre Medicina (Ateliê/Oficina Rubens Borba de Moraes)."Na época em que morei no apartamento dele, eu dormia perto dela e tinha sempre o mesmo pesadelo, o de um velho que me apertava a garganta." Pedro Nava contou, num de seus livros, que na cadeira se sentara o presidente de Minas Gerais Antônio Carlos de Andrada. Depois da morte do escritor, a cadeira foi parar na casa de uma irmã de Penido. Uma barreira caiu - a cadeira foi enterrada na garagem. Um filho dela pediu o móvel e seu casamento acabou. "Ninguém queria a tralha", brinca. A cadeira acabou ficando com o editor Cláudio Giordano, da Oficina Rubens Borba de Moraes, co-responsável pela reedição da obra da Nava, iniciada em 1998, que está tentando desfazer o mito: "Olha, já sobrevivi a quatro anos anos com ela."A mostra, organizada principalmente com documentos (como manuscritos e versões de suas obras) que fazem parte do acervo da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, e objetos herdados por familiares, por enquanto, deve ficar restrita à cidade mineira. A Casa de Rui Barbosa tem a intenção de abrir uma versão dela na instituição em novembro, mas isso ainda não é certo. "A obra de Nava fala muito de Juiz de Fora, onde ele viveu cerca de 12 anos e clinicou por um, depois de se formar médico", afirma Valéria Faria, curadora da mostra. Segundo ela, a universidade mineira planeja criar um memorial em sua homenagem, que ocuparia o prédio em que atuou como clínico, atualmente ocupado pelo Diretório Central dos Estudantes.Leia mais.

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