Mostra e livro de Militão Augusto de Azevedo eternizam imagens do século 19

Fotografias do artista mostram elementos das mudanças urbanísticas de São Paulo no período

SIMONETTA PERSICHETTI - ESPECIAL PARA O 'ESTADO',

21 de setembro de 2012 | 03h10

Uma importante lembrança de São Paulo durante sua transformação de burgo caipira em cidade que mais tarde se tornaria metrópole. Foi esse o legado que Militão Augusto de Azevedo (1837- 1905) nos deixou com seus registros de 1862 e as fotos dos mesmos locais feitas 25 anos depois, em 1887. Esse material e outros foram reunidos no livro que tem como título apenas o nome do artista, numa parceria entre a Secretaria Municipal de Cultura, a Casa da Imagem e a Editora Cosac Naify, com textos de Rubens Fernandes Junior, Heloisa Barbuy e Fraya Frehse.

São imagens como as do Álbum Comparativo da Cidade de São Paulo, que pertencem ao acervo da Biblioteca Mário de Andrade, e mais 113 fotografias que integram a coleção Militão Augusto de Azevedo do Acervo Fotográfico Casa da Imagem.

Paralelamente ao lançamento do livro, a Casa da Imagem também inaugura amanhã a mostra A Cidade Desaparecida de Militão Augusto de Azevedo, com 80 imagens, e a instalação Tombo: R. Costi, da artista plástica Rochelle Costi, realizada após pesquisa no acervo da instituição.

E de repente, por intermédio do trabalho de Militão, retornamos a uma São Paulo que, se já não era mais vila, também estava longe de ser cidade. O ano era 1862 e como lembra o pesquisador e historiador de fotografia Rubens Fernandes Júnior, a capital paulista contava com cerca de 50 ruas e menos de 30 mil habitantes. Praticamente um burgo. Mas foram estas ruas e seus personagens que chamaram a atenção deste carioca de 25 anos, que acabava de desembarcar por aqui com a mulher e o filho recém-nascido.

Lugarejos que ele esquadrinhou com sua câmera de grande formato, talvez despertando a curiosidade dos transeuntes que em algumas imagens aparecem encostados nos batentes das portas, das lojas e armazéns, olhando para aquele homem e seu aparato.

É ainda Fernandes Júnior que nos recorda que naquela época Militão "iniciava seu aprendizado fotográfico nos estúdios de Carneiro & Gaspar". Provavelmente, fazer vistas da cidade era parte de seu aprendizado, já que, na época, o retrato era ainda a linguagem mais em voga e rentável e na qual o mestre se destacou.

Antes de ser fotógrafo, ele trabalhou como ator e não se sabe ao certo o que o fez deixar a capital federal e se transferir para a cidade caipira nem por que ele decidiu se tornar fotógrafo. Também é incerto se foi aqui em São Paulo que ele aprendeu o ofício ou se já tinha noções sobre fotografia desde o Rio, que possuía muitos estúdios.

Mas a verdade é que foi aqui que ele se tornou pioneiro de um tipo de registro urbano e, apesar, do pesado equipamento, circulou com grande liberdade estilística pelas ruas da cidade.

Um olhar jovem que acompanhou o desenvolvimento de São Paulo. Durante os três primeiros anos em que fotografou a cidade, criou o seu primeiro documento urbano: "Nenhuma outra cidade brasileira importante do período - Rio de Janeiro, Recife, Salvador - teve, quantitativamente, um conjunto tão expressivo e bem elaborado como o produzido por Militão em São Paulo", escreve Fernandes Júnior.

Treze anos depois de suas primeiras fotografias, Militão tornou-se proprietário do estúdio onde fizera seu aprendizado, que passou a chamar-se Photographia Americana. Foi lá que ele realizou numerosos retratos dos personagens da cidade, que somados às suas fotografias urbanas, nos deixa, sem dúvida, um rico legado histórico, social e antropológico daquele período.

Em 1885, começa a se desinteressar pela profissão. Tenta vender o estúdio. E foi justamente este cansaço que o levou em 1887 a realizar o grande projeto de sua vida: produzir um álbum comparativo da cidade, refotografando os mesmos locais que havia registrado em 1862.

Suas fotografias - que no livro são comentadas pelo curador do projeto, Henrique Siqueira - nos trazem elementos da transformação da cidade, o calçamento, as mudanças urbanísticas na segunda metade do século 19. Locais como a Sé, o Largo São Bento, do Carmo e São Francisco, a estação ferroviária, os jardins públicos.

Em 25 anos, a cidade havia passado por profundas alterações. Encontramos ali o germe do que viria a ser a metrópole. Imagens que ajudaram a criar nosso imaginário sobre a constituição da cidade e nos dão identidade. Mas, talvez, como escreve a socióloga Fraya Frehse, também devamos inverter a questão: "Em vez da urbe em gestação, interessa aquela que está desaparecendo, mas se mantém viva no imaginário do qual as imagens de Militão são simultaneamente produtos e produtoras".

MILITÃO AUGUSTO DE AZEVEDO

Rubens Fernandes Júnior, Heloisa Barbuy e Fraya Frehse

Cosac Naify, 216 págs., R$ 66

Casa da Imagem. Rua Roberto Simonsen, 136-B,tel. 3106 -5122.

3ª a dom., 9 h/ 17 h. Grátis. Até 25/11.

Abertura amanhã, 11 h.

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