Mostra é lição de arte contemporânea

A terceira edição da mostra Território Expandido, em cartaz até domingo no Sesc Pompéia, traz algumas lições e colocam alguns problemas para aqueles que se interessam por arte contemporânea e sobre como a arte lida com as questões da contemporaneidade.Em primeiro lugar, ela ensina o seguinte: o fato de o artista usar novas tecnologias não significa, necessariamente, que ele, por causa disso, passe a trafegar fora do antigo circuito das "belas-artes"; o videomaker, ou o "artista das novas mídias" pode fazer com essas tecnologias o mesmo que faria caso usasse pincel, ou buril ou o martelo. Conclusão: o uso de mídias contemporâneas não assegura a contemporaneidade do artista e de sua proposta.A segunda lição que podemos tirar dessa exposição é que, se o uso da parafernália tecnológica, em si mesma, já um problema sério para a resolução espaço-temporal das instalações, muito mais problemático é quando os artistas, com o intuito de criar um "clima", ou então um supostamente produtivo "estranhamento" no espectador, lançam mão de objetos artesanais e/ou semi-artesanais para "compor" a instalação. Esses arranjos tendem a provar que o kitsch pode estar em qualquer lugar.Conclusão: o uso de mídias contemporâneas não assegura a contemporaneidade do artista e sua proposta. A terceira lição que se deve reter dessa mostra é que a videoarte e as instalações com outros tipos de tecnologia de ponta ganham muito quando pretendem apenas isso: ser um vídeo, ou um audiovisual, por exemplo.Um vídeo que solicita empréstimos do cinema, da fotografia, mas que também busca, em suas peculiaridades de meio ainda novo, elementos para contar uma história com sensibilidade. Como, por exemplo, o vídeo O Quartinho, de Walter Silveira.Um audiovisual que busca a somatória de tantas formas de arte para criar uma síntese inusitada e despretensiosa. Como, por exemplo, o projeto Infobodies III.Conclusão: um índice de contemporaneidade pode manter-se dentro de proposições ainda repletas de valores modernos.A quarta e última lição que essa mostra deixa ao visitante é que o espaço da arte, hoje em dia, pode tornar-se o espaço privilegiado para a apresentação de questões extra-artísticas, mas de profundo interesse social. E que essa apresentação pode vir moldada num aparato de forte impacto físico/visual - caso de In Media Res, de José Wagner Garcia.Ou então, num contexto cru de montagem, mas que alcança plenamente seus objetivos. Caso de Questions Marks/Interrogando Silêncios, de Maurício Dias e Walter Riedweg. Conclusão: quer aquele aparato sofisticadíssimo, quer aquele supostamente menos complexo, ambos aparentam ser imprescindíveis quando usados com critério, em abordagens sensíveis aos dramas contemporâneos. Por essas e, com certeza, inúmeras outras lições é que me parece imprescindível uma chegada ao Sesc Pompéia. Porque lá todos vão ver que a tecnologia, no âmbito da arte, pode ir muito além do fascínio pela própria tecnologia...

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