Mostra é homenagem a escola mineira

Durante seis meses, a historiadora de arte Aracy Amaral debruçou-se sobre a obra de Marcos Coelho Benjamin, Fernando Lucchesi e José Bento, três grandes artistas contemporâneos brasileiros e representantes legítimos - senão fundadores - da dita "escola mineira", termo cada vez mais usado para definir a arte que funde de maneira encantadora o universo do artesanato popular com uma cuidadosa elaboração formal.O resultado dessa pesquisa poderá ser conhecido amanhã à noite, com o lançamento dos livros que analisam a obra de cada um deles, no Museu Brasileiro da Escultura. Na mesma ocasião será inaugurada uma exposição conjunta, com obras realizadas pelos três artistas na última década, que consegue cumprir duas funções aparentemente opostas: mostrar o que há de comum em seu pensamento artístico evidenciando ao mesmo tempo as singularidades e riquezas de seus discursos plásticos.É comum aproveitar a exposição de um determinado artista para se lançar um livro sobre seu trabalho. Invertendo esse costume, a mostra funciona como um suporte para as publicações monográficas. Como diz Benjamin, o que dá verdadeiro sentido ao evento é a oportunidade de publicar estudos criteriosos sobre seus trabalhos. Nada impede, no entanto, que a ocasião seja transformada numa oportunidade de exibir ao publico paulistano a coerente e sólida produção desses três artistas "fazedores" por excelência.O termo é de Benjamin, que vê tanto no seu trabalho quanto no de seus colegas uma certa despreocupação com o lado conceitual, com o discurso que cada vez mais acompanha a obra de arte contemporânea. A importância do fazer é reafirmada na exposição por meio de uma vitrine - que inevitavelmente remete à idéia de altar - na qual estão obras em pequena dimensão, na escala da mão, que eles estão permanentemente fazendo.Além disso, cada um dos artistas é representado com uma série de obras de grande dimensão. Lucchesi mostra seis de suas pinturas iluminadas, que repetem obsessivamente as mesmas formas cativando e hipnotizando o olhar do espectador. Como escreve Aracy, "se há um artista em Minas - ou no Brasil - que mantém acesa a chama do barroco da primeira metade do século 18 (...) este é, por certo, Fernando Lucchesi".Bento provoca o espectador com suas rodas feitas de pequeninas ripas de madeira, que remete indiscutivelmente ao enorme círculo mandálico feito por Benjamin no chão do museu com lascas de pedra de São tomé. Alguns identificam nessas formas simples um procedimento de caráter religioso, outros vêem aí uma certa influência minimalista.Mas para Benjamin, o principal fato a ser ressaltado, sempre, é o fato de que eles fazem arte com o que está à mão e à vista. "O nosso quintal está impregnado disso", acrescenta. A isso se soma a vontade de estabelecer um contato direto com o espectador, sem bulas ou legendas. Nem título os trabalhos têm. "Nós resgatamos a linguagem na sua essência, somos artistas plásticos que fazemos uma obra para ser entendida pelos olhos e não pelos ouvidos", explica ele.São três caminhos distintos, seguidos por representantes de diferentes gerações (Benjamin é o mais velho e Bento o mais novo), mas que inevitavelmente propõem não uma volta ao passado, mas um resgate de uma certa brasilidade contida nos materiais, gestos e procedimentos, que constitui um dos caminhos mais brasileiros para a arte nacional.Ponta da navalha - Benjamin reconhece encantado o risco de se situar numa espécie de fio da navalha entre o artesanato e a arte dita culta. O mesmo tipo de retorno às raízes, associado com um profundo interesse pelo pensamento de ponta no circuito internacional se faz sentir na obra de outros artistas mineiros (como Rivane Neueschwander, Waleska Soares ou Shirley Paes Leme) e em outras regiões do País - curiosamente aquelas marcadas por uma forte tradição artesanal e com uma sólida tradição artística -, como Pernambuco, por exemplo.No caso de Minas, há um fator adicional para o desenvolvimento desse processo, que vai muito além das tradições do apego à mineiridade ou da influência indiscutível do barroco. Trata-se da troca de experiências proporcionada por uma convivência freqüente e por eventos coletivos importantes, como o Festival de Inverno de Campos do Jordão, que está completando três décadas de existência. Uma espécie de testemunho afetivo do grande mestre mineiro, Amílcar de Castro, ajuda a reafirmar essa espécie de vínculo invisível que une os artistas que são mineiros não apenas por nascimento, mas por sentimento e, principalmente, por escolha. Cada uma das monografias está "ilustrada" com um poema feito pelo escultor e poeta sobre a obra do artista retratado.Por ser o artista mais velho, Benjamin ganha uma monografia mais alentada. Dela também participam os críticos Frederico Morais, Márcio Sampaio e Roberto Pontual. O título de Lucchesi também traze artigos de Ângelo Oswaldo de Araújo e Frederico Morais e o de Bento, um ensaio assinado por Agnaldo Farias. Aracy Amaral também contou com a ajuda da crítica e pesquisadora Regina Teixeira de Barros, que a assessorou na curadoria e na produção dos livros, sendo a autora de uma cuidadosa bibliografia sobre cada um dos artistas.Serviço - Marcos Coelho Benjamim, José Bento e Fernando Lucchesi. De terça a domingo, das 10 às 19 horas. MuBE - Museu Brasileiro da Escultura. Rua Alemanha, 221, tel. (11) 3081-8611. Até 11/2. Abertura amanhã, às 20 horas, para convidados, com lançamento de livro.

Agencia Estado,

17 de dezembro de 2000 | 16h10

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