Mostra de SP exibe filmes do israelense Amos Gitai

Há dois anos, ao completar 60 anos, Amos Gitai recebeu um belo presente de Jeanne Moreau. A mítica atriz francesa alugou um teatro em Paris e leu para ele as cartas de sua mãe - a mesma correspondência que foi editada na França por Gallimard e que Gitai negocia com a Cosac Naify para lançar no Brasil, em 2013 ou 2014. O grande autor israelense, vencedor do prêmio humanitário da Mostra, está de novo em São Paulo. Gitai participou no sábado, no Cinesesc, de um debate sobre seus filmes "Carmel" e "Canção para o Meu Pai". Compõem um díptico. Falando de sua mãe e de seu pai, ele aborda de um novo ângulo questões importantes da história de Israel.

AE, Agência Estado

30 Outubro 2012 | 10h49

"Já fiz filmes sobre a religião, Kadosh, sobre a guerra, Kippur, e sobre o processo de formação de Israel, Kedma. O filme sobre as cartas de minha mãe (Carmel) me permite agora olhar a grande História por meio de uma personagem rica e complexas, mas anônima, da mesma forma que meu pai me fornece ferramentas para falar do ofício dele, era arquiteto, e do meu", o diretor explica na entrevista realizada num hotel da Paulista. Debruçar-se sobre os arquivos de seus pais lhe deu uma perspectiva mais funda - e íntima - de quem eles foram e do que ele próprio se tornou.

"Minha mãe viveu em Londres e, nesse período, fiquei num kibutz. Já naquela época eu era um agitador, que adorava contestar. Sou crítico em relação a Israel, mas isso não significa que não ame meu país." As cartas da mãe tratam, entre outros assuntos, da guerra e Gitai filma o filho, soldado do Exército de Israel. Os grandes temas misturam-se aos banais para compor o mosaico dessas vidas que foram intensas.

O pai foi arquiteto na Bauhaus. Trabalhou com Mies van der Rohe, Wassily Kandinsky e Paul Klee. Preso pelos nazistas e acusado de traição ao povo alemão, conseguiu sobreviver e migrou para Israel. Fazendo uma arquitetura social, ensinou desde cedo ao filho que o comprometimento é fundamental na vida do homem. Os filmes foram difíceis de fazer (e montar)? "Ia filmando e agregando o material de arquivo, compondo blocos. Quando sentia que faltava alguma coisa, voltava a filmar. A cena com Jeanne Moreau foi a última coisa que filmei em Carmel."

O cinema de Gitai fornece um testemunho visceral da situação no Oriente Médio. E ele filma o que ninguém mostra. Agora mesmo, em janeiro, inicia uma ficção inspirada em fatos. Num reduto palestino, um médico descobriu uma mulher com deficiência de cálcio nos ossos. Perguntou-lhe se havia passado fome na infância. Sim - nos campos de concentração dos nazistas, aos quais sobreviveu com a mãe. As duas migraram para Israel, ela se apaixonou por um palestino. "São histórias de amor, convivência e superação que vale a pena contar", Gitai reflete. Ele teme pelo futuro do Oriente Médio. "Aquilo sempre foi sangrento, mas pode ficar ainda mais." Na eleição norte-americana, Mitt Romney tem criticado Barack Obama por sua fraqueza na região. "Nós sabemos o que é força para os republicanos. É militarização, mais guerra." Gitai está preocupado. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

CANÇÃO PARA O MEU PAI

Cinemark Shopping Cidade Jardim - terça, às 19 h

CARMEL

Reserva Cultural - terça, 15h30

OUTROS DESTAQUES

"No" - O filme do chileno Pablo Larraín, que abriu a Mostra este ano, tem Gael García Bernal como publicitário que faz campanha vitoriosa contra Pinochet. Às 14 h, no Cine Livraria Cultura - Sala 1

"Uma História de Amor e Fúria" - A animação de Luiz Bolognesi conta séculos de história do Brasil por meio de personagens esculpidos na voz e no corpo de Selton Mello e Camila Pitanga. Às 16h10, também no Cine Livraria Cultura - Sala 1

"Repare Bem" - O documentário de Maria de Medeiros reabre a questão dos direitos humanos sob a ditadura. Às 18h30, no Itaú Frei Caneca 1

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