Mostra de Senise desafia a gravidade

A obra de Daniel Senise começa no chão e sobe pelas paredes. Quatorze grandes telas do artista plástico carioca podem ser vistas a partir de hoje em duas salas do Instituto Tomie Ohtake, na mostra intitulada The Piano Factory (A Fábrica de Piano). Em todas elas está presente a principal característica de Senise: o uso do chão para cobrir a superfície do quadro. Dessa vez o assoalho utilizado é o de uma desativada fábrica de pianos do Bronx, Nova York, cidade onde o artista vive há dois anos. Os resíduos, a fuligem e os pigmentos do chão de fábrica são fixados em tecidos para depois revestirem as telas. A esse trabalho de colagem seguem as linhas que formam os desenhos, inspirados em pinturas de autores clássicos e contemporâneos. A exposição, com curadoria de Aguinaldo Farias, está divida em duas partes. Na primeira, estão as quatro telas da Piano Factory. Nelas Senise trabalhou imagens de quadros. Na segunda parte, as referências são ambientes destinados a museus. Em comum, são mostrados espaços desabitados e sem limites definidos. O processo é de esvaziamento. Uma das telas, por exemplo, baseia-se na obra O Bilhar, do pintor francês Louis-Léopold Boilly - um dos mais representativos do período napoleônico. Na tela original há personagens e uma mesa de jogo. Na recriação de Senise, eles são eliminados em benefício do espaço: "Olho para uma tela, seja de que época for, e a esvazio. Desse modo, só vejo o ambiente". O efeito obtido em quem vê, segundo Farias, é o de uma "vertigem sutil". "É como se o espaço por onde o visitante está andando se distendesse, espichando-se para o fundo." Outra tela apresenta um ambiente com uma porta aberta para outra sala, por sua vez aberta para uma segunda sala e assim sucessivamente. "É uma seqüência intrigante como aquelas bonecas russas de madeira que desatarraxamos para encontrar uma outra dentro e depois outra e mais outra até que nos deparamos com uma bonequinha compacta. Só que no trabalho do Senise não há fim", explica o curador. Esse mesmo efeito é trabalhado a partir de telas de outros artistas como Vittorio Carpaccio, Edward Hopper e Eugene De Blas, cujas imagens são selecionadas por Senise em catálogos, Internet e museus. Serviço: "The Piano Factory", exposição com 14 obras de Daniel Senise, de hoje até 7 de abril, no Instituto Tomie Ohtake, na Av. Faria Lima, 201, Pinheiros, de terça a domingo das 11h às 20h, tel.: 6844-1900.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.