Paulo Liebert/AE
Paulo Liebert/AE

Mostra de São Paulo: Novidades

Renata de Almeida revela algumas pérolas da festa que começa dia 22

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2010 | 00h00

A mesa revela uma aparente bagunça - o catálogo dos filmes exibidos na última Quinzena de Realizadores do Festival de Cannes se confunde com uma caixa de DVDs com a nova edição de Até o Fim do Mundo, versão sem cortes do diretor Wim Wenders. E ainda sobra espaço para uma seleção de poemas de Allen Ginsberg, poeta beat que, entre outras frases famosas, disse que "quem quer que controle a mídia, as imagens, controla a cultura". Renata de Almeida não tem tamanha ambição, mas é sob seu controle que, ao lado de Leon Cakoff, ocorre anualmente um dos mais tradicionais festivais de cinema, a Mostra Internacional de São Paulo, cuja 34.ª edição começa no dia 22.

Serão mais de 400 filmes que vão ocupar 22 salas da cidade, evento que se tornou sagrado para qualquer cinéfilo. "Trata-se de um público seletivo, com personalidade, que já elegeu como preferidos filmes que praticamente passaram em branco em outros festivais", comenta Renata, lembrando do clássico exemplo do holandês Jos Stelling, consagrado pela 9.ª Mostra com O Ilusionista. "No ano seguinte, ele veio a São Paulo e se surpreendeu por ter se tornado uma celebridade."

Renata coleciona uma série de histórias como essa, farto material que resultaria em um delicioso livro (leia alguns casos nesta página). Afinal, sua participação começou na 13.ª Mostra, em 1988, ano em que foi exibido o Decálogo, de Krzysztof Kieslowski, entre os 127 filmes selecionados. "Eu fazia de tudo um pouco; ainda éramos uma equipe muito pequena e o orçamento, muito apertado."

Nada comparado com os padrões atuais, em que os números são superlativos. Até a semana passada, 729 longas estavam na lista de pré-seleção para um festival que, no seu auge, utiliza o trabalho de 450 pessoas, das quais 34 no escritório central, que é o coração da Mostra, e o restante espalhado pelas salas de exibição, hotel onde se hospedam os convidados, locais de alojamento de filmes, etc.

É preciso recuar no tempo para lembrar a origem de tamanha organização. Renata, que trabalhou como atriz de teatro e produtora de cinema antes de assumir a codireção do evento, fazia de tudo um pouco, desde participar da escolha dos filmes da programação até fornecer informações por telefone para os fãs. "No início, dependíamos do apoio de consulados além do Instituto Goethe e do British Council para conseguirmos os filmes que não estreariam no circuito comercial", relembra. "Também viajávamos para os grandes festivais de cinema em busca tanto de novidades ainda obscuras como dos principais premiados", completa ela, casada com Cakoff com quem tem dois filhos.

A presença constante nos principais eventos permitiu que o casal aos poucos se tornasse conhecido. Não apenas de organizadores como também de atores e cineastas. Isso permitiu a vinda de inúmeros convidados a São Paulo, muitos ainda sem a condição de ilustres que teriam no futuro, como o diretor Quentin Tarantino, que conversou animadamente com os poucos espectadores que assistiram ao seu filme de estreia, Cães de Aluguel, na 16.ª Mostra, em 1992. "Até hoje, quando o encontramos em festivais, ele se lembra daqueles dias e promete voltar", diverte-se Renata.

Tradição. Relações mais estreitas permitiram ainda o início de uma privilegiada tradição: a de o desenho do cartaz de cada edição ser criado por um grande nome. Assim, a partir da 20.ª Mostra, que ostentou um desenho feito especialmente por Akira Kurosawa, as edições seguintes foram apresentadas por artistas do porte de Aleksandr Sokúrov, Atom Egoyan, Amos Gitai e Isabella Rossellini.

Ao mesmo tempo em que a Mostra crescia em número de filmes e de salas de exibição, as atrações começaram a diversificar. Assim, além da programação habitual, cada ano passou a contar com o lançamento de um livro em homenagem a um dos convidados. "Não satisfeitos, organizamos agora exposições de fotografia e de artes visuais", observa Renata, referindo-se às duas pérolas que vão compor a edição deste ano: as fotos de Wim Wenders ("Ele virá pessoalmente para organizar a montagem das imagens") que ficarão no Masp, e os desenhos de Akira Kurosawa, a serem exibidos no Instituto Tomie Ohtake.

A tecnologia também ajudou - hoje, acompanhar festivais ainda faz parte da agenda dos organizadores, mas boa parte dos filmes é enviada por DVD. O que não se altera, porém, é o contato pessoal. Renata lembra que nos últimos anos vinha conversando pessoalmente com o cineasta Claude Chabrol para organizar sua vinda a São Paulo. "Ele era muito engraçado, contava piadas, falava palavrões e queria vir", relembra, confessando o desejo de trazer ainda nomes aparentemente impossíveis, como Martin Scorsese e Clint Eastwood. "Sempre buscamos mais desafios."

JÚRI 2010

Alan Parker

diretor britânico

Miki Manojlovic

ator sérvio

Carlo Di Carlo

crítico e diretor italiano

Samuel Maoz

diretor israelense

Michel Ciment

crítico francês

Serge Avedikian

ator e diretor armênio

ELA CONTA HISTÓRIAS DE CINEASTAS

Pedro Almodóvar

"Ele veio na 19ª Mostra, em 1995, e, logo de cara, pareceu um tanto antipático ao decidir não dar entrevistas. Mas, com a exibição de A Flor do Meu Segredo, no vão livre do Masp, ficou muito contente. Mais ainda com os presentes que alguns fãs levaram para ele naquele dia: guardou todos, bem satisfeito."

Walter Salles

"Ele apoia a mostra desde o início, participando do júri, ajudando a convidar cineastas e trazendo seus filmes. Mas, no começo, quando nem tínhamos dinheiro para alugar carros para os convidados, Waltinho chegou a ficar na porta de uma churrascaria chamando táxi para eles e pagando o motorista."

Quentin Tarantino

"Quando chegou para a 16ª Mostra, em 1992, pediu catálogos das edições anteriores. Estranhei mas, mesmo assim, eu os dei e, no dia seguinte, ele falava com detalhes de todos os filmes que passaram naqueles anos. Depois, me contou que passou a madrugada estudando catálogos para ficar à vontade."

Wim Wenders

"Nós o convidamos diversas vezes, mas ele só pôde vir em 2008. Mas logo se sentiu à vontade, sempre andando a pé, conversando com as pessoas, posando para as fotos. Ele chegou a me dizer que nunca, em lugar nenhum, motoristas gritavam o seu nome enquanto dirigiam, como aconteceu aqui."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.