John Shults/Reuters
John Shults/Reuters

Mostra de Hopper retrata linha do tempo de sua produção

Exposição prova que obra do pintor de 'Nighthawks' vai bem além de sua tela mais famosa

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2012 | 02h07

No mundo da arte, o sucesso por vezes pode vir acompanhado de armadilhas. Edvard Munch, o mestre norueguês pioneiro do expressionismo, foi durante muitos anos prisioneiro de uma de suas telas, O Grito, transformada em ícone, mas desconectada do conjunto de sua obra, desconhecida da maioria. Um processo semelhante de hiperexposição, mas também de desconhecimento, envolve o americano Edward Hopper. Eclético, o autor se tornou célebre por Nighthawks, um dos pontos altos de sua carreira - mas não o único.

A prova de que vida e obra do pintor americano vão bem além do quadro que se transformou em pôster para o quarto de adolescentes é a mostra em cartaz até 28 de janeiro no Grand Palais, em Paris. A exposição se tornou desde seus primeiros dias o maior sucesso da rentrée cultural da França - o período em que acontecem os lançamentos mais esperados da literatura, da música e das artes em Paris.

Idealizada pelo crítico de arte e curador Didier Ottinger, diretor adjunto do Museu Nacional de Arte Moderna (Centro Pompidou), a mostra reconstitui a formação de Hopper, desde o início do século 20, até sua morte, como pintor consagrado, em 1967. Para explicar esse percurso, o curador optou por reconstituir a linha do tempo do pintor. Na primeira parte estão os anos de sua formação (1900- 1924), assim como suas referências e influências. É a época em que Hopper aprendia no ateliê de Robert Henri na New York School of Art, nos primeiros anos do século. Hopper estava entre os discípulos de Henri na fundação da chamada Ashcan School ("Escola da Lixeira", literalmente). Nesse período, flagra-se um pintor encantado pelas técnicas impressionistas durante suas estadas em Paris em 1906, 1909 e 1910, apaixonado pelos ângulos e pela teatralização do mundo de Degas, pelas luzes de Félix Vallotton, pela mise-en-scène de Walter Scikert.

A mostra segue com seu retorno aos Estados Unidos, sua reaproximação do realismo da Ashcan School e pela pratica da ilustração, que lhe garantiu o sustento financeiro. Então o percurso leva o espectador à segunda parte de sua trajetória, inaugurada pela exposição no Museu de Brooklyn e pela chegada do reconhecimento e do início de sua maturidade como artista.

O intuito da exposição é levar o público a refletir sobre os sonhos que inspiraram a América, tão bem capturados pelo olhar poético de Hopper. Mas é possível deixar o Grand Palais com mais dúvidas do que certezas. A grande questão é: que sonhos embalavam os Estados Unidos quando o país assumia sua posição de potência? Seria o ideal da liberdade em sua plenitude, ou talvez o da obsessão pela ascensão social e pelo consumismo nas grandes metrópoles?

Hopper dedicou sua carreira a reproduzir as paisagens de seu país, assim como a vida da classe média, pela qual capturou as transformações sociais dos Estados Unidos. Durante a maturidade artística do pintor, seu país passou pelo deslumbramento provocado pelo crescimento econômico, assim como pelo crash de 1929 e pela vertigem da Grande Depressão. Depois, voltaria a viver uma era de esplendor e autoconfiança que reforçou o protagonismo dos novos-ricos do planeta. Para muitos, esse foi o sonho americano, acalentado em um ideal coletivo: o de viver em uma terra de oportunidades.

Na obra de Hopper, entretanto, a história dos Estados Unidos parece algo diferente. Quando de sua guinada em direção ao sucesso, o trabalho do pintor refletia uma iconografia que lhe era cara: a de uma vida bucólica - urbana, campestre ou praiana - que remete à introspecção, nada a ver com o país do boom pré-depressão, do esplendor econômico seguido de consumismo irrefreável e da sensação de certeza e de fé que acompanha a ideologia do sonho americano.


Com cores fortes e marcantes - intensas quando devem ser, quando o sol é forte, ou quando a noite é profunda -, Hopper recriou com riqueza de detalhes a arquitetura de casas e prédios, de repartições públicas, fachadas, calçadas, postes, telhados, estações de trem do interior ou ruas vazias da noite metropolitana.


Nesses cenários, estava o cotidiano de homens e mulheres solitários, americanos comuns: a leitora de Hotel Room (1931), as mulheres no cafés de Chop Suey (1929), o casal de Room in NY (1932), os pescadores de Ground Swell (1939), a jovem de Morning Sun (1952). Nessas imagens também estava uma dose de melancolia expressa por vezes com algum erotismo, ironia ou ainda cumplicidade, como em Nighthawks (1942).

Ao desaparecer, Hopper deixou uma obra reivindicada por diferentes escolas, do romantismo ao realismo, do simbolismo ao formalismo e ao naturalismo. Como Peter Seltz, curador da seção americana da Bienal de São Paulo de 1967, trata-se de um pioneiro da pop art, um homem que se alimentou da cena artística de Nova York para traduzir em telas um lado oculto do sonho americano.

De fato, na América dos novos-ricos, dizia o pintor por meio de suas telas, não havia só festas, dinheiro, ostentação. No sonho americano de Hopper, também havia vidas reais.

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