Mostra de fotos em Londres joga luzes sobre estilo e método de Burroughs

Escritor cuja obra e vida se confundiram tem mostra e biografia em seu centenário

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

31 Janeiro 2014 | 19h24

Esta semana, celebra-se o centenário de nascimento de William Seward Burroughs, autor crucial identificado com a Beat Generation e escritor de um livro fundamental da literatura moderna, Almoço Nu (Naked Lunch), escrito durante pesada dependência em drogas.

Figura de proa da contracultura, Burroughs não será tão lembrado quanto deveria. Saiu uma nova biografia, de Barry Miles e, em Londres, uma exposição na The Photographers’ Gallery (16-18 Ramillies Street) explora de forma inédita seu trabalho de fotógrafo.

Burroughs deixou sua voz em discos, como Home of the Braved, de Laurie Anderson, e teve insights multidisciplinares. Em 1989, colaborou na ópera The Black Rider, escrevendo o libreto (Tom Waits compôs as canções e Robert Wilson encenou).

Nascido em 5 de fevereiro de 1914, em St. Louis, filho de um fabricante de louças, Mortimer Burroughs, e da dona de casa Laura Lee, ele era neto do fundador da máquina calculadora.

Sua obra pode ser entendida como uma grande rede em que se entrecruzam disciplinas como filosofia, antropologia, psicanálise, política, pintura, cinema e cultura pop. Burroughs influenciou a contracultura, os escritores cyberpunks e de ficção científica, a música underground e de vanguarda, além de vários cineastas e artistas pop.

Viveu em Nova York, Londres, Paris, Cidade do México City e Tânger. Figura controversa. “Só porque ele dormia com garotos, usava drogas e fumava ópio não significa que ele tolerasse ou apoiasse as minorias de junkies, homossexuais ou drogados”, escreveu Barry Miles, em 1993. “Bill simplesmente não gostava da maioria das pessoas.”

 

Bill, o fora da lei literário. Bill, o subversivo conservador. Bill, o vanguardista das múltiplas formas. Bill, o militante ambientalista. Bill, o alcoólatra drogado. Há 50 anos, Norman Mailer sentenciou: “William Burroughs é o único romancista americano vivo hoje que se pode conceber que tenha sido possuído pelo gênio”.

Há muitos William Burroughs. Parte deles está bem contemplada numa nova biografia de 736 páginas, Call Me Burroughs: A Life, de Barry Miles, que foi lançada no início desta semana nos Estados Unidos pela Twelve. Outro evento fundamental para conhecer um desses Burroughs é a mostra Taking Shots, em Londres, na The Photographer’s Gallery, que reúne mais de 100 fotos do escritor – uma de suas paixões era fotografar, a outra era pintar. Já no título, Taking Shots explora o duplo sentido da palavra “shot”, que tanto designa tirar fotos quanto atirar (uma das paixões do autor eram as armas).

Morto em 1997, aos 83 anos, o escritor viveu uma vida de pesadas controvérsias. Em 6 de setembro de 1951, bêbado, colocou um copo na cabeça da mulher, Joan Vollmer, e disse que iria fazer um “ato de Guilherme Tell”. Atirou no copo com uma pistola 38 automática. Matou a esposa. “A imaginação é muito limitada para compreender o vasto mistério e o senso de absurdo e sonho que deve existir na mente de Bill”, escreveu Neal Cassady.

“Houve algumas mostras menores das fotografias de Londres de Burroughs, e algumas de suas fotos foram exibidas anteriormente como parte do espectro amplo de seu interesse visual. Mas Taking Shots é a primeira exposição a tratar sua fotografia como fotografia, e explorar como e porque ele usava fotos, além de abarcar fotos suas da América, Europa e África do Norte, abrangendo três décadas de sua vida”, disse ao Estado Patricia Allmer, curadora da mostra.

O outro curador, John Sears, falou à reportagem sobre o universo do autor. “Burroughs era conectado à geração beat, mas não era realmente parte dela. Era mais velho que todos eles e sua escrita é distinta, em termos de estilo e objeto, da escrita de Kerouac ou Ginsberg, e muito distante formalmente de cada um deles”, afirmou.

O grande fotógrafo da geração beat foi Larry Keenan. As fotos de Burroughs que estão reunidas na exposição mostram o oposto: não se trata ali do culto à personalidade, mas da compreensão de cor, luz, ângulo e composição na própria obra dele. Às vezes, sugere um esforço anti-documentarístico. Há colagens, superposições. Burroughs teria tido um mestre na fotografia?

“Burroughs não foi um fotógrafo profissional, e não parecia imitar ou trabalhar em relação com nenhuma tradição fotográfica ou estilo. Ainda assim, como o catálogo demonstra, é possível traçar muitos paralelos com a fotografia de rua dos anos 1960 como foi praticada por Robert Frank e Garry Winogrand”, disse Sears.

Segundo os curadores, como fotógrafo Bill trabalhou em diversos sentidos tradicionais, como na série Flower, dos anos 70, na qual ele mergulha nos livros de arranjos florais da mãe. Burroughs usa fotografia de muitos jeitos, afirmam: seja para registrar etapas diferentes de suas produções artísticas, documentar eventos e atividades das quais ele tomou parte ou lugares que ele visitou e viveu e, muitas vezes, como uma forma de estimular, pela fotografia, os próprios elementos de sua escrita.

A exposição londrina também se debruça sobre outros aspectos da obra do artista. Burroughs era multimídia. Mas teria interesse no que se faz hoje com as tecnologias digitais? “Nos anos 1960, Burroughs experimentou largamente com áudio e filme, o mais famoso desses esforços foi o trabalho que fez com Anthony Balch produzindo filmes como Towers Open Fire, que está sendo projetado aqui na exposição Taking Shots. Embora ele tivesse interesse em novas tecnologias em si mesmas, ele sempre se mostrou mais interessado nas possibilidades representacionais das novas tecnologias e em seus potente efeitos na percepção humana e na consciência. Muitos músicos contemporâneos e performers, além de artistas digitais, como Scanner, Laurie Anderson e Bill Laswell, foram influenciados pelo trabalho de Burroughs”, afirmou John Sears.

A exposição Taking Shots inclui diversos retratos de figuras-chave da geração beat, como Ginsberg e Kerouac, mas a maior parte do que há de “beat” em sua foto, segundo os curadores, está mais representado pela série New York Car Accident, na qual Burroughs registra os fatos que se seguiram a um acidente de carro na frente do seu apartamento em Manhattan em 1965, oferecendo um precioso documentário da vida urbana, do domínio do automóvel na metrópole, a compulsão pela xeretagem, pelo voyeurismo, algo que caracterizava aquela vida em meados dos anos 1960 em Nova York.

Burroughs deveria ter morrido dos excessos, concorda a maioria dos que examinam sua obra e sua vida. Mas a maior parte dos seus parceiros foi morrendo e ele ficando. Nos últimos dias, vivia com três gatos numa casa em Lawrence, fotografando e pintando. Dizia que pintava, muitas vezes, “de olhos fechados”.

“A fotografia parecia se relacionar com as teorias do tempo e da memória de Burroughs, além das ressonâncias místicas de lugar, além de oferecer meios a ele de experimentar com formas e imagens, de relacionar a produção da imagem por meio da fotográfica especificamente com a tecnologia. Muitas de suas fotos registram as condições extratemporais e as percepções de um usuário de drogas, o que seria documentado em muitos de seus escritos”, disse Patricia Allmer.

Almoço Nu, sua obra chave, apesar do texto fantasmagórico, foi escrita em Tânger, no Marrocos, antes de suas experiências com os cut-up. A exposição de Londres reúne muitas fotos dessa fase, onde Burroughs começava a experimentar com a técnica e assemblages para produzir novos significados. “Não quero repetir a mim mesmo”, dizia.

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