Mostra de filmes, sem celebridade

Se é verdade que o resultado do júri fornece o retrato final de um festival, o de Veneza 2012 não pode ser considerado muito nítido, devido ao autoritarismo de Michael Mann e as confusões que dela resultaram. Mas não se pode esquecer também que, em meio à crise europeia, Veneza fez um belo festival, mostra mais sintética e empenhada em relação às de anos anteriores, na qual a grande atração foram os filmes e não as celebridades na passarela. Tudo isso conta, e muito.

VENEZA, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2012 | 03h08

Quem seguiu esta edição do Festival de Veneza teve a oportunidade de sacar tendências do cinema mundial contemporâneo. Pietà é representante de um certo brutalismo oriental que, mesclado a um sentido poético, faz a crítica impiedosa do capitalismo selvagem. Kim Ki-Duk, goste-se dele ou não, faz cinema político, e da melhor qualidade, já que discute as condições reais a que os seres humanos são submetidos para sobreviver.

Olivier Assayas, saído da experiência vertical de Carlos, sua obra oceânica sobre esse personagem controverso, faz um recuo ao tempo da juventude e procura recuperar os ideais dos anos 60 e 70, porém sem romantizá-los. Com Après Mai, fez um filme de um frescor extraordinário, multifacetado, complexo, e também muito amoroso com os personagens.

Marco Bellocchio, com Bella Addormentata (Bela Adormecida), toma um caso que comoveu a Itália e, através dele, produz um poderoso afresco da era Berlusconi. O caso é o da jovem Eluana Englaro, em coma por 17 anos até que seu pai conseguiu uma medida judicial para desligar as máquinas. A Itália dividiu-se, católicos e leigos de lados opostos, conservadores e progressistas em trincheiras contrárias. O filme é magnífico. Pode-se dizer, sem medo de errar, que Bellocchio foi o grande injustiçado deste ano, assim como já o fora em 2003 com seu Bom Dia, Noite, sobre o caso Aldo Moro.

A parte espiritual ficou com Terrence Malick e seu To the Wonder, prosseguimento da sua busca metafísica iniciada com A Árvore da Vida, vencedor de Cannes no ano passado. Mas o fato é que Malick e a espiritualidade são exceções. O cinema de arte contemporâneo olha mais para a terra que para o céu. / L.Z.O.

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