Felipe Rau/ Estadão
Felipe Rau/ Estadão

Mostra de atrações

Autógrafos de Eduardo Coutinho e Michel Ciment, filme no Ibirapuera: o fim de semana é do cinéfilo

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2013 | 02h14

Como já é tradicional na Mostra, o segundo fim de semana é mais concorrido que o primeiro para todos - convidados, imprensa e público. Você vai ter de se desdobrar para dar conta de tantos eventos, alguns simultâneos. A própria Renata Almeida, diretora artística da Mostra, mesmo sem ter contabilizado os números, concorda com o repórter - muitos filmes têm se esgotado, as sessões andam lotadas. "Sábado passado, havia três filmes brasileiros no mesmo horário, em diferentes salas. Temia que algum tivesse menos público, mas os três lotaram e isso foi muito gratificante para todos nós."

Amanhã, na Sala Cinemateca, numa cerimônia reservada, ela anuncia os filmes selecionados pelo público para concorrer ao Troféu Bandeira Paulista - e ao prêmio Cinemark, de estímulo para lançamento. Sobre essa pré-seleção, o júri vai fazer sua escolha, e Renata também apresenta o júri internacional, integrado por Lav Diaz, o mestre filipino que está sendo homenageado com uma retrospectiva. É curioso como as coisas ocorrem. A retrospectiva de Lav Diaz começou a tomar forma em Veneza, no ano passado, quando ele foi premiado. Diaz participou da seleção de Cannes neste ano com Norte e o filme é o gancho para que a prestigiada revista Film Comment dedique uma extensa análise ao autor, aprofundando a conexão de sua obra com a do escritor russo Fiodor Dostoievski.

Crime e castigo, segundo Lav Diaz - e Renata Almeida vê a retrospectiva como um contraponto à de Stanley Kubrick, um autor conhecido do público, e não apenas dos cinéfilos. Rever todo o Kubrick é sempre um privilégio, até porque seu cinema está sendo sempre revisado e crescendo com isso. A toda hora, livros e estudos descobrem conexões despercebidas e símbolos - a maçonaria - que dão novos significados ao que parecia já mapeado. Lav Diaz, pelo contrário, é (quase) desconhecido e representa uma cinematografia, a filipina, que mal e mal começa a ser desbravada pelo espectador brasileiro.

Kubrick, justamente. No domingo, às 17 horas, o crítico Michel Ciment lança no MIS seu livro Conversas com Kubrick, uma edição da Cosac Naify com o selo Mostra. No mesmo dia, às 12 horas, no Espaço Itaú Augusta, o mesmo Ciment se integra à série Os Filmes da Minha Vida, idealizada por Leon Cakoff. Vai ser interessante conferir os filmes - quantos de Kubrick? - que ajudaram a forjar o imaginário do crítico da revista Positif, e, a propósito, Ciment acaba de gravar uma série de depoimentos para um livro que a Positif vai editar sobre ele (e, quem sabe, a Mostra e a Cosac Naify poderão trazer ao Brasil). Na mesma série Os Filmes de Minha Vida, quem presta depoimento hoje, e na mesma hora e local, é Walter Salles, cinéfilo de carteirinha e consagrado diretor de Central do Brasil.

Precedendo toda essa movimentação, o mestre documentarista brasileiro Eduardo Coutinho autografa hoje, às 20 horas, no Cinesesc, o livro que leva seu nome. É uma coletânea de textos do próprio Coutinho e de seus colaboradores, ajudando a explicitar a visão de cinema e o método do artista. Na sequência, às 21h20, a sala apresenta Cabra Marcado para Morrer, de 1984, que foi o filme farol da carreira de Coutinho. Ao retomar o material que havia abordado como ficção, 20 anos antes - e o filme fora abortado pela eclosão do regime militar -, o diretor encontrou sua via no cinema brasileiro (e mundial) e virou o mestre que a Mostra já distinguiu com o Troféu Humanidade e agora destaca de novo com a retrospectiva.

Ainda no quesito resgate, domingo à noite, no Ibirapuera, com acompanhamento da Orquestra Sinfônica Petrobrás, a Mostra apresenta a cópia restaurada de Nathan, o Sábio, de Manfred Noa. O filme mudo de 1922 baseia-se na peça de mesmo nome do poeta e dramaturgo alemão Gotthold Ephraim Lessing, que a escreveu no século 18, como resposta à censura após a publicação de um ensaio do filósofo Samuel Reimarus, crítico às religiões cristãs. Obra questionadora da guerra e da intolerância, Nathan ganhou na época o slogan 'O filme da humanidade'. O sábio do título tenta resolver pelo diálogo os conflitos entre cristãos, judeus e muçulmanos em Jerusalém, durante as Cruzadas, no século 12. Não admira que, com o advento do nazismo, o filme, baseado no princípio da aceitação do outro, tenha sido banido do mapa. Por mais de 70 anos, Nathan, o filme, foi considerado perdido, até que uma cópia foi localizada em Moscou em 1996. Restaurada, ela ganha agora destaque na Mostra, com direito a trilha composta pelo libanês Rabih Abou-Khalil.

Nessa correria toda, o que Renata Almeida consegue ver? "Vejo antes, na fase de seleção, e depois tento recuperar alguma coisa na repescagem. Agora, fico administrando os problemas do dia a dia e participando de encontros como o simpósio do cinema coreano, que culminou com uma carta de intenções. Se o cinema brasileiro tem a aprender com alguém é com o cinema coreano, que cresceu tanto nos últimos 15 anos." Como culminação dessa parceria com a Coreias, a Mostra traz a São Paulo Park Chan-wook, autor do mítico Oldboy, que acaba de ganhar versão de Spike Lee em Hollywood.

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