Mostra começa sob o signo do cinema jovem

Em narrativa não convencional, A Alegria aborda adolescente em crise

Luiz Zanin Oricchio / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2010 | 00h00

Na apresentação de A Alegria, no palco do Cine Brasília, o diretor Felipe Bragança disse que havia dúvidas quanto à seleção dos concorrentes deste ano, formada por jovens realizadores. "Não se trata de ter dúvidas, mas festejar a coragem que alguns têm de fazer cinema." Ao lado dele, a outra diretora do filme, Marina Meliande, e o resto da equipe. Foi sob esse signo do cinema jovem, que começou a mostra do 43.º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Salto no escuro de um festival até agora acostumado a nomes consagrados e, este ano, verá rostos desconhecidos sucedendo-se no palco e nas imagens na tela.

O fim da sessão foi menos grandiloquente que seu início. O filme foi aplaudido, mas não muito. Diante de uma plateia, em sua maioria de jovens e universitária, A Alegria, com sua narrativa pouco convencional, enfrentou certa dificuldade de comunicação. O filme é o segundo da trilogia Coração no Fogo, que a dupla pretende realizar: o primeiro é A Fuga da Mulher Gorila, que venceu a Mostra de Tiradentes de 2010.

Bragança & Meliande fazem um cinema interessante, pouco usual, que pode intrigar a plateia e coloca algumas questões aos críticos. Uma delas: até onde irá a influência precoce sobre o jovem cinema brasileiro de Apichatpong Weerasethakul, Palma de Ouro em Cannes com Tio Boome, Que Podia Ver Suas Vidas Passadas? De todo modo, se a forma faz lembrar o tailandês, a ambiência de A Alegria é bem carioca. Põe no centro da história uma adolescente com sua crise de idade, em meio a outra crise, a da violência urbana, que ganha relevo com a atual onda de ataques no Rio.

BASTIDORES

Glauber na tela

O Leão de Sete Cabeças (1970), título menos conhecido do diretor baiano Glauber Rocha, pinta na tela do Cine Brasília dia 29, às 17 h. O filme, rodado na África durante o exílio do cineasta, chega em cópia restaurada, após anos sem ser mostrado ao público. Será apresentado às gerações que, do baiano, só conhecem seus títulos mais famosos como Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe.

Família Rocha

Por coincidência, na mesma edição em que a cópia restaurada de O Leão de Sete Cabeças será lançada, um dos filhos do cineasta, Eryk Rocha, estreia na mostra competitiva com seu Transeunte. Eryk se encontrará em Brasília com a irmã, Paloma Rocha, curadora do acervo do pai e virá para o lançamento de Leão. Brasília está muito presente na vida dos Rochas. Serviu de locação para o último filme de Glauber, A Idade da Terra (1980).

Novo filme de Carlão

O incansável Carlos Reichenbach veio a Brasília, apresentou a cópia restaurada de Liliam M., seu filme de 1975, e anunciou que começa novo projeto em 2011. O roteiro está escrito, mas as filmagens só começam após o cineasta se livrar de um problema de saúde: terá de ser operado de "catarata nuclear". A cirurgia está marcada para janeiro e o diretor promete voltar enxergando mais do que nunca.

Novos rumos do festival

A Associação Brasiliense de Cinema e Vídeo (ABCV) está discutindo os novos rumos do Festival e do Cine Brasília, como parte da programação oficial do evento e procura redefinir o caminho do mais tradicional festival de cinema do País. Brasília tem enfrentado dificuldades e, este ano, em particular, sofreu com a crise no governo Arruda. Em off, dirigentes admitem que temeram pela mostra, que acabou ocorrendo mas com percalços. Sob novo governo, do petista Agnelo Queiroz, o festival poderá sofrer modificações. Ainda não se sabem quais. Entidades de classe, como a ABCV e a Associação dos Produtores do DF já procuram se antecipar a essas reformas e influir em sua direção. Brasília tem formato estável definido há anos: só seis longas em competição e, de preferência, inéditos. Muita gente o defende, mas há quem o ache limitante.

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