BRUNO DIEL
BRUNO DIEL

Mostra ‘Charlie Hexpo’ terá brasileiro entre expositores

Rudi Sgarbi será um dos nomes que estarão na exposição; arrecadação será entregue às famílias das vítimas dos atentados

Andrei Netto, O Estado de S. Paulo

15 Janeiro 2015 | 03h00

PARIS - Um brasileiro, o artista plástico Rudi Sgarbi, está entre os 40 artistas convidados a participar de uma homenagem aos mortos do jornal satírico Charlie Hebdo em Paris. A exposição, denominada Charlie Hexpo, será realizada entre esta quinta (15) e o dia 21 de janeiro, com renda revertida às famílias de vítimas dos 17 mortos dos atentados realizados na capital e na cidade de Montrouge, na região metropolitana.

O vernissage da mostra está marcado para a quinta-feira, na galeria 28 bis, em Paris, com o apoio do coletivo Artlabz. Diante do tempo exíguo para organizar a mostra, a internet e as redes sociais têm sido um meio importante na divulgação do evento. Em uma página de Facebook, Charlie Hexpo foi criada para explicar o intuito da exposição e ao mesmo tempo atrair o público. “Os artistas defendem a liberdade de expressão e lutam contra o ódio, organizando uma exposição de apoio às famílias de vítimas do massacre de Charlie Hebdo”, afirmam os curadores.

O brasileiro Sgarbi foi convidado a participar durante o vernissage de uma exposição que realizou em Paris, Solo Show, iniciada um dia após o atentado e que se encerra hoje. “O trabalho dele trata de dois temas: o conflito e o deslocamento. Como seu trabalho acontece nesses termos, ele foi convidado para a participação”, explica sua curadora, a franco-brasileira Nina Sales, fundadora e comissária da ArtMaZone, uma organização que estabelece o contato entre artistas brasileiros com galerias e exposições na Europa.

Rudi não participará do evento em Paris porque já está em Nova York, por compromissos profissionais. Sua obra escolhida questiona ‘pourquoi?’ – por quê? – e faz referência à execução do policial Ahmed Merabet, morto a tiros por um dos irmãos Kouachi, autores do atentado, em frente à câmera de um cinegrafista amador.

Ainda na França, um dos mais importantes festivais de quadrinhos, o Angoulême, terá início no dia 29 e criou um prêmio em homenagem ao atentado, chamado Charlie da Liberdade de Expressão, cuja proposta é premiar artistas que tenham sido impedidos de exercer a profissão.

No Brasil. O choque provocado pelo assassinato dos cartunistas Georges Wolinski, Charb, Cabu, Tignous e Honoré, e das outras vítimas da investida de radicais islâmicos contra a revista de humor Charlie Hebdo, levou muitos brasileiros a repetir o slogan “Je Suis Charlie”. Mas o trabalho desses desenhistas é desconhecido por aqui. Impactado pela brutalidade da invasão à redação da revista, o presidente da Biblioteca Nacional, Renato Lessa, montou rapidamente uma singela homenagem a Wolinski, decano do cartum francês (tinha 80 anos) e um dos grandes nomes mundiais do gênero.

Na entrada do prédio, no centro do Rio, junto a um cartaz com a inscrição em francês em solidariedade à Charlie Hebdo, foram instaladas duas vitrines com reproduções de quadrinhos publicados na revista Grilo, que circulou no Brasil entre 1971 e 1973 e apresentou ao País o trabalho de Wolinski e de outros ilustradores do underground, como os norte-americanos Robert Crumb e Jules Feiffer e o italiano Guido Crepax. O criador do Snoopy, Charles Schulz, que já era conhecido aqui, também teve desenhos impressos na revista.

O material é do acervo da biblioteca. A principal reprodução é de uma HQ da personagem Paulette. Foi sua criação mais famosa, com alta carga irônica e erótica. Não por acaso, a história exibida fala de (des)crença religiosa e manipulação das massas e satiriza a figura divina – o fundamentalismo religioso, seja qual fosse a religião, o incomodou e pautou a atuação de Wolinski na imprensa.

“É uma mostra pequena, simbólica. Fui leitor da Grilo e não me preocupei em expor a coleção inteira. Wolinski merecia algo maior, mas precisaríamos de mais tempo”, conta Lessa.

“Rir é uma virtude cognitiva: o humor surpreende, desloca significados cristalizados, alarga a sensibilidade. É, portanto, inimigo mortal do dogmatismo, do fanatismo e dos portadores de certezas inegociáveis”, diz o texto de Lessa que introduz a mostra. / COLABORARAM ROBERTA PENNAFORT E PEDRO ANTUNES

Artista carioca fez primeira individual na França em 2014

Rudi Sgarbi, artista plástico brasileiro, não estará mais em Paris, mas sua revolta diante do atentado à sede da revista ‘Charlie Hebdo’ estará exposta na galeria 28bis, em um evento beneficente que buscará arrecadar dinheiro em benefício dos familiares das vítimas daquele 7 de janeiro. O trabalho do carioca estará exposto ao lado de outros 40 artistas selecionados e que estarão expostos por uma semana. 

A peça de Sgarbi, em questão, questiona o motivo pelo qual o policial francês Ahmed Merabet, assassinado do lado de fora do prêmio. A imagem traz, com letras garrafais, a pergunta “por quê?”, em francês, além de figuras que lembram os terroristas durante o assassinato. 

No Facebook, comemorou o fato de ter sido selecionado. “Não estou mais em Paris, mas esse trabalho será exposto numa coletiva que reúne obras de 40 artistas e suas visões sobre esse triste atentado que ocorreu na semana passada”, escreveu. 


Sgarbi, nascido em 1975, em Niterói (Rio), foi a Paris no fim de 2014. Lá, graças a uma ocupação de artistas brasileiros não famosos realizada na cidade, chamada ‘Enchanté, Paris!’, conseguiu a primeira exposição individual na Galerie Jed Voras, na qual ele pode exibir seus trabalhos de quadros e esculturas. / P.A. 

Mais conteúdo sobre:
Charlie HebdoParisFrança

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.