Mostra atrai novas platéias ao Teatro Municipal

Na noite de quarta-feiraespectadores caminhavam pelo saguão do Teatro Municipal, olhosvoltados para teto e paredes, apreciando cada detalhe dabelíssima arquitetura neoclássica do edifício. Vestuário ecomportamento deixavam claro não serem "habitués" da casa. Antesde a entrada na platéia ser liberada, um garoto, sorrateiramente, abre a porta que dá acesso ao balcão nobre para olhar ointerior do teatro através das cortinas. E chama seuscompanheiros para "xeretar" junto com ele. Luis Guilherme deSouza Silva, de 10 anos, está em companhia do primo, Victor deSouza e sua namorada Luciana Lopes Meirelles, ambos de 21 anos."Adoro teatro, mas moro longe, no bairro da Saúde", justificaLuciana. "Victor veio no fim de semana e hoje trouxe agente."Todos foram ao teatro atraídos pela Mostra São PauloTeatro na Cidade, promovida pela Secretaria Municipal deCultura. Desde o dia 5, companhias teatrais vêm apresentandoespetáculos no palco e no saguão do Teatro Municipal, além deruas do centro da cidade - todos com entrada grátis. Segundoestimativas do Departamento Municipal de Teatro, até a noite dequarta-feira, a mostra já havia alcançado um público deaproximadamente 25 mil pessoas.Pela mesma estimativa, boa parte desses espectadoressubiu pela primeira vez as escadarias do Teatro Municipal.Afirmativa que pôde ser conferida na noite de quarta-feira, naapresentação do espetáculo Auto da Paixão e da Alegria, coma companhia de Artes e Malas-Artes. Com texto de Luís Alberto deAbreu, o auto é uma recriação plena de lirismo e humor da paixãode Cristo.Se a idéia era atrair um espectador não "habituado" afreqüentar o teatro, pelo menos na noite de quarta-feira oobjetivo foi atingido. Um grupo de seis pessoas, entre elas umacriança, chamava atenção ao circular pelo espaço numa espécie de"tour" guiado por uma moça. A "guia" era Ana Pires, de 28 anos,que levara mãe e primos pela primeira vez ao Municipal."Estudei educação artística, daí o meu interesse pelaarquitetura", diz. Moradora do bairro do Tucuruvi, na zonanorte, trouxe os parentes que vivem em Osasco. Confessam não tero hábito de ir com freqüência ao teatro. "Uma mostra como essaé um estímulo", afirma Ana.Próximo às escadarias, um jovem casal se diverteobservando uma pintura. São os irmãos Samantha Feliciano, de 15anos, e Vinícius Feliciano, de 18 anos, ele estudante daFaculdade de Direito do Largo São Francisco. Apesar de fazerparte do grupo de teatro da faculdade, admite ir "pouco aoteatro". O principal motivo - a distância. "Acho que deveriamexistir mais teatros nos bairros. Seria uma forma de adquirir ohábito desde criança", argumenta Vinícius, morador de CidadeA.E. Carvalho, bairro da zona leste. "Para ir longe, é maisdifícil. Cinema a gente vai ver qualquer coisa, escolhe até nahora em que chega lá. Mas escolher uma peça, é sempre maisdifícil."Ambos procuram a reportagem após o término doespetáculo. "Gostei especialmente daquele efeito de sombraatrás do pano na primeira aparição de Jesus", diz Samantha. Eleelogia o humor de raízes populares. "O personagem João Teitélembra o João Grilo do Auto da Compadecida." E afirmam terficado com vontade de conhecer o repertório da companhia, emcartaz no Teatro Paulo Eiró, em Santo Amaro. Pelo visto, além doprazer de ver um bom espetáculo, eles adquiriram a possibilidadede fazer uma escolha no momento de voltar ao teatro.No saguão, João Batista da Silva Junior conversa com umamigo. Ele havia visto a peça A Comédia do Trabalho, no fimde semana anterior e aprovou. "Eles trabalharam de formafantástica com situações do cotidiano, como o desemprego." Foio que estimulou voltar ao teatro, desta vez trazendo junto oamigo Cláudio Roberto Ribeiro, que jamais havia estado noMunicipal, para ver o Auto. "Claro que a gente tem vontadede vir aqui, mas as ´tarifas´ são muito caras."A julgar pelo público de quarta-feira, quem vê uma boapeça, tem vontade de repetir a experiência. E, neste fim desemana, mais uma vez, a mostra promete esgotar a lotação de millugares no Municipal.Mostra São Paulo Teatro na Cidade. Palco: amanhã,às 18 e 21 horas, Bartolomeu, Que Será Que Nele Deu?; domingo,às 17 e 20 horas, Biedermann e Os Incendiários. Saguão: amanhã(15), às 11 e 15 horas, Ufa! Que Perigo!; domingo, às 11 e 15horas, As 4 Chaves. Grátis (palco, retirar convites no dia, apartir das 10h30; saguão, retirar no dia anterior a partir das10h30). Teatro Municipal. Praça Ramos de Azevedo, s/n.º, SãoPaulo, tel. 222-8698. Até domingo.

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