Mosaico sonoro feito com emoção e grande respeito pela história

O Portugal profundo está presente no precioso disco Matriz, de Tereza Salgueiro, lançado no ano passado em sua terra e inexplicavelmente inédito no Brasil. Mais que uma produção que segue o rigoroso padrão dos discos gravados pela cantora com o grupo Madredeus, essa experiência sonora com o septeto Lusitânia Ensemble, liderado pelo violinista Jorge Varrecoso Gonçalves, é uma viagem pela tradição musical portuguesa através dos tempos, desde as cantigas dos trovadores medievais até a canção urbana, passando pelo malhão, o corridinho e o fado castiço.

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2010 | 00h00

A busca da matriz portuguesa não se faz de modo ortodoxo. Não há nela orgulho nacionalista ou nostalgia sebastiana, mas uma atitude legítima de estabelecer uma ligação entre as várias correntes estéticas que fizeram dos portugueses músicos algo refratários às influências externas, seja no período barroco ou romântico. Como observa o professor Rui Vieira Nery no CD, a integração dos portugueses aos movimentos musicais estrangeiros nunca se fez sem certa reserva. A música portuguesa, conclui ele, não simpatiza com o contraponto, mas valoriza a curva melódica - uma fórmula sob medida para a voz de Tereza Salgueiro.

Nas duas dezenas de canções selecionadas, que vão de uma cantiga de amigo do século 13 à poesia contemporânea de Fausto Bordalo Dias (Por Este Rio Acima), Matriz revela uma combinação harmoniosa das tradições portuguesas com os arautos da modernidade, que não dispensam a emoção algo espectral de uma linha melódica mais melancólica, como Bordalo Dias ao falar com nostalgia dos viajantes do século 17.

É igualmente emocionante a interpretação de um hino como Acordai, de Fernando Lopes Graça, composto em 1941, um épico contra injustiças que rima muito bem com a sinceridade ideológica de Tereza Salgueiro. E, para que não associem essa canção revolucionária a gritos de guerra contra a tradição, ela interpreta o clássico e comovente fado que Alberto Janes escreveu para Amália Rodrigues em 1952, Foi Deus, que se transformou num dos seus maiores êxitos quando gravado um ano depois.

Como Tereza Salgueiro gosta de variar, selecionou ainda duas cantigas dançadas, uma com jeito de "vira", composta por Cruz e Sousa (Vira da Desfolhada), e outra do cancioneiro popular, o Malhão de Cinfães, em homenagem à província de mesmo nome do Conselho de Viseu. Poucas vezes se ouviu um mosaico sonoro português tão bonito. E um documento musical histórico tão precioso como esse.

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