Eduardo Nicolau/AE
Eduardo Nicolau/AE

Morumbi vira a república McCartney

Ele seduz público - e cada grupo, político ou cultural, se torna íntimo[br]e passa a chamá-lo de 'nosso'

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2010 | 00h00

Ele tem 68 anos, mas não dá mostras de que esteja cansado ou entediado. A voz foi bem cuidada nestes 53 anos de show biz (ele começou a cantar aos 15), não está maltratada pelos excessos de uma atividade vertiginosa. E Paul sabe que essa é a alma do negócio: sua voz é encarada como uma espécie de rocha paleontológica a atestar que existiu realmente uma era de ouro do pop. Adapta o show ao gosto do freguês, seja na Suazilândia ou na V. Nova Brasilândia. E tem, a ampará-lo, 25 canções dos Beatles num repertório de 35 músicas.

Podia dar errado? Podia, se fosse mal conduzido. Mas, como num show da Broadway, tudo na Up and Coming Tour é calculadamente marcado - a movimentação pelo palco, a hora de tirar o paletó, os rompantes punks do baterista, as frases no dialeto nativo. O que impressiona não é só a eficiência desse aparato, mas sua qualidade. A nitidez da voz de Paul, da imagem no telão, os coros, os solos: tudo é perfeito, não há deslize, não há imprevisto, não há surpresas (a não ser as "surpresas" que estão no roteiro).

As "outras" músicas escolhidas do repertório são dos seus discos pós-Beatles, de suas fases com os Wings, Band on the Run e como Fireman. Entre elas, clássicos como Live and Let Die, um dos pontos altos do show, que Paul compôs para a trilha de James Bond, em 1973. Mostram que McCartney também tem uma consistente carreira solo e comprovam a prodigiosidade de seu talento como compositor.

"Listen, agora vamos embora?", disse, misturando português e inglês e fazendo um onomatopaico "rooonc", enquanto massageava o estômago. O público adorou o blefe, e só tinha fome mesmo era de Beatles. Mas é claro que ele não sairia antes de deixar todo um estádio esgotado, já na madrugada de ontem. Apresentou os músicos, também em português, chamando-os de "minha banda fantástica". O grupo é competente, mas o toque de "atualização" (se é que essa palavra cabe aqui) fica por conta do versátil baterista Abe Laboriel Jr, cuja propulsão tira o show da armadilha da pura nostalgia e o projeta no século 21.

"Essa eu fiz para a minha gatinha Linda (Linda McCartney, sua ex-mulher, morta em 1998). Mas, hoje, é para todos os namorados", disse, antes de debulhar My Love. Jornalistas despiam-se do manto da objetividade e choramingavam pelos cantos. Paul colaborou para mudar um pouco o mapa do Brasil e da América Latina anteontem. Empunhavam-se orgulhosamente bandeiras do Ceará, de Minas Gerais, ouviam-se sotaques do Rio e de Pernambuco, jornalistas chilenos e fãs peruanos. Todo mundo compartilhava suas experiências de "Testemunhas de Paul". É como se dissessem: Paul é "nosso". O "vipódromo" também pegou fogo: artistas como a atriz Leandra Leal, o cantor Lenine e o estilista Tufi Duek, entre dezenas, circulavam pelas áreas VIPs.

Paul ia pontuando as canções com frases decoradas em português, com dicção elegante e gestos engraçados, às vezes batendo no peito como um daqueles meninos da Terra do Nunca de Peter Pan. "Esta noite eu vou falar português. Mas vou falar mais inglês", disse, arrancando risos. A partir de The Long and Winding Road, ao piano, sem terno, mostrou os suspensórios e seu talento para acalentar multidões. O Morumbi já estava dominado, 64 mil almas em festa.

"Obrigado, paulistas", disse Paul, cujo repertório estendeu-se por 35 músicas. O beatle estava animado: pouco antes do show, promoveu uma festinha de aniversário para a namorada no Hotel Hyatt (leia abaixo). Entre as 16 e as 17 horas, fez a passagem de som, que foi assistida por 200 fãs. Nela, tocou até uma música dos Rolling Stones, segundo assessores (que não souberam informar qual).

Na pista, fervia o desfile multicultural: o vocalista do Skank, Samuel Rosa, dava autógrafos de um lado; do outro, o ator Dan Stulbach tirava fotos com fãs. José Serra, candidato derrotado à Presidência, andou entre o público da Pista Prime e foi muito cumprimentado, mas também soaram algumas vaias. O clima, no geral, era de trégua cultural. Além do ex-candidato, um ex-presidente, Fernando Henrique Cardoso, e um ex-candidato a vice aproveitaram o show de Paul para espairecer e recuperar o fôlego político. FHC não saiu do camarote, mas o ex-candidato a vice em sua chapa, Índio da Costa, dançou de se acabar com a namorada na pista.

"Minha música preferida foi Yesterday, porque ele tocou sozinho, com o violão", disse o deputado Índio da Costa, que contou ter assistido ao show anterior do ex-beatle no Brasil, no Maracanã, em 1993. " É incrível, ele parece que tá melhorando, cheio de energia, a voz cada vez melhor."

REPERTÓRIO (DIA 21)

Venus and Mars/Rock Show

Jet

All My Loving

Letting Go

Drive My Car

Highway

Let me Roll it

Long and Winding Road

1985

Let me in

My Love

I"ve Just Seen a Face

And I Love her

Blackbird

Here Today

Dance Tonight

Mrs. Vandebilt

Eleanor Rigby

Something

Band on the Run

Ob-la-Di, Ob-la-Da

Back in the USSR

I Gotta Feeling

Paperback Writer

A Day in the Life

Let it Be

Live and Let Die

Hey Jude

Day Tripper

Lady Madonna

Get Back

Yesterday

Helter Skelter

Sgt. Pepper"s Lonely Hearts Club Band

Especial. Mais sobre a cobertura de Paul em Sampa

PAULTERGEISTS (O QUE PODERIA FUNCIONAR MELHOR)

1. O transporte público. Taxistas faziam verdadeiros assaltos aos bolso dos fãs na saída do estádio. Que abriu na hora errada, dificultando a chegada.

2. Sobe o som. Em comparação com o show de Porto Alegre, o som estava mais baixo na Pista Prime. Na arquibancada estava melhor.

3. Lixo no luxo. Na Pista Prime, não se via uma lata de lixo. Funcionários passavam recolhendo os dejetos, mas não davam conta do serviço.

4. Preços abusivos. Vendedores circulavam oferecendo produtos absurdamente caros. Um salgadinho saía por R$ 6 e um cigarro por R$ 12.

5. Filas na entrada. As filas eram intermináveis na entrada do estádio. Muitas pessoas reclamavam dos furões e da falta de ação da polícia.

6. Cambistas. Os ilegais fizeram a festa nos entornos do Morumbi. Ingressos para a Pista Prime (R$ 700) eram vendidos a R$ 1.500.

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