Morte e vida do autor

Em se tratando de leitura de texto, Jacques Derrida é o filósofo que mais se empenha em neutralizar a figura do autor. É clássica sua análise do Fedro, de Platão. Ele retoma o esquema que rebaixa o valor do texto escrito, delegando-o aos sofistas, e nobilita a busca da verdade pela presença de Sócrates junto à sua fala. Sócrates a protege e a explica. Derrida assinala o quiproquó do grego e afirma que os interlocutores, ao deixarem gravar no papel a palavra, dela se ausentam para que o texto do diálogo, a escrita, seja em toda plenitude. Gravada no papel, a palavra viva de Sócrates é a letra morta de Platão. Sem a assistência do autor, o texto autossuficiente passa a deambular pelo mundo em busca de sentido. (Machado de Assis, criador de Dom Casmurro, não socorre o leitor nas dificuldades que enfrenta. Apenas diz: repita a leitura, um dia você ainda o entende.) Ao assumir a postura derridiana, o leitor do diálogo platônico reclama, pois, a autonomia e a liberdade indispensáveis para apreender com rigor qualquer texto. Responsabiliza-se: faz seu o que é de outro.

Silviano Santiago, O Estado de S.Paulo

16 Abril 2011 | 00h00

Esse é o fundamento da teoria de Derrida sobre a escrita (e não sobre o poder da voz) e sobre a leitura (e não sobre a interlocução ao vivo). A prática filosófica foi herança do diálogo entre falantes, da maiêutica. Hoje, o leitor não se julga mais um interlocutor desvalorizado de Sócrates que, além-túmulo e ainda junto à fala, protege-a dos falsários e a explica. A prática filosófica desconstrói (verbo de Derrida) o fundamento fonocêntrico da metafísica ocidental, da linguística de Ferdinand de Saussure, da antropologia de Lévi-Strauss e da psicanálise de Lacan. Ao desconstruir esse pressuposto, a filosofia passa a ter por objeto a escrita e como prática a leitura.

As 740 páginas escritas por Benoît Peeters (Flammarion, 2010) historiam longa e minuciosamente a "vida de Jacques Derrida" (1930-2004). As premissas que regem o gênero biografia, de que é exemplo o clichê da infância humilde dos grandes homens, não teriam sido minadas pela desconstrução? Desconstruída, a biografia clássica não é apenas um caminhão-baú que, tendo como destinatário o admirador do filósofo, transporta com competência e carinho documentos e depoimentos de ordem pessoal dispostos cronologicamente? Como recuperar a memória do filósofo? Pena que a resposta tenha sido apenas insinuada por Derrida. Sabe-se como não se deve.

Não é, pois, estranho que o discípulo Bernard Pautrat tenha se indignado quando o carioca Carlos Freire andou clicando Derrida. Peeters registra a indignação (p. 542). Pautrat admirava a linha antimídia do mentor. Não dava entrevistas, não se prestava a fotos. Um choque. Dezenas de fotos do filósofo no número especial da revista Magazine Littéraire e no livro produzido com Geoffrey Bennington. Imagens meramente anedóticas e retratos da vida privada. "Confesso que fiquei decepcionado" - confidencia Pautrat. Passo por cima dos dois cadernos de fotos selecionadas por Benoît Peeters.

O equívoco de Peeters é o de dar a entender que Derrida se interessa pela biografia de filósofos. Há que distinguir biografia e autobiografia. Derrida não se interessa pela vida de um autor escrita por outro, em geral de forma anedótica e cronológica. Interessa-se pelos textos autobiográficos de Jean-Jacques Rousseau e de Friedrich Nietzsche. Nestes, a subjetividade se escreve a si pela letra morta e atesta a favor da necessidade filosófica de não sublimar o corpo (físico) no corpus (textual). Aliás, Derrida estabelece a distinção entre uma e a outra de maneira vulgar. Propositadamente? À pergunta "Qual é a vida sexual de Hegel ou de Heidegger?", seguem-se considerações impertinentes: "Não estou querendo dizer que seria necessário fazer um filme pornô sobre Hegel ou Heidegger. Quero ouvi-los falar sobre o papel que o amor tem nas suas vidas". Ao transcrever a si no papel, o autor se apresenta contraditoriamente mais vivo. A "vida" do filósofo é diferida em escrita e revelada pela autonomia do texto que dela se libera. Os atos e fatos enumerados do mero viver não são tema filosófico. A letra morta e enigmática da subjetividade em crise o é.

Peeters está certo quando dá a entender que Derrida só tem interesse pela vida de figuras notáveis. O autor de Otobiographies não se arrisca como Michel Foucault ao analisar Eu, Pierre Rivière, Que Degolei Minha Mãe, Minha Irmã e Meu Irmão.

E mais correto está ao salientar a coragem pública de Derrida, de que é bom exemplo a defesa de Heidegger e de Paul de Man, acusados respectivamente de nazista e de antissemita. Em entrevista a Evelyne Grossman, Derrida confessa: "Quando tento pensar, trabalhar ou escrever e quando creio que alguma coisa "verdadeira" deve ser aventada no espaço público, na cena pública, pois bem, força alguma no mundo me bloqueará". Exemplifica com os ensaios que iriam ferir Lévi-Strauss e Lacan. E conclui: "Era impossível guardar aquilo só para mim. Trata-se de uma lei, de uma pulsão e de uma lei: não posso não dizer". A esse impulso, ele dá o nome de pulsão de verdade.

O leitor pouco comprometido com a filosofia de Jacques Derrida e interessado por um vasto, às vezes pouco rigoroso e sempre rico panorama da vida filosófica na França e nos Estados Unidos (onde o filósofo ensinou com frequência), poderá ter prazer ao acompanhar a história sentimental do menino judeu argelino que assombrou o mundo pela sua compreensão solitária, arrojada e originalíssima da metafísica inventada pelo Ocidente e por ele imposta como universal. Derrida não pode não ser judeu argelino. O Mediterrâneo europeu é compreendido pela sua outra margem, ontem e hoje em chagas. Quanto do teu sal são lágrimas de África!

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