Morre William Styron, autor de <i>A Escolha de Sofia </i>

Há uma preocupação pelo tema do mal, sua origem, sua banalização, que percorre a obra do escritor americano William Styron. Aparece em suas obras mais famosas - A Escolha de Sofia, que virou filme com Meryl Streep, e As Confissões de Nat Turner, mas também em Perto das Trevas, quando ele desmontou o mito da depressão criativa, descrevendo, como uma estação no inferno, a própria dependência de antidepressivos e tranqüilizantes, que quase o levou ao suicídio. Styron sobreviveu para contar essa história e alimentar uma polêmica que sacudiu o mundo das letras, no começo dos anos 90. Na quarta-feira, aos 81 anos, ele morreu de pneumonia em Martha´s Vineyard, no Estado de Massachusetts.Natural de Newport News, Virginia, onde nasceu em 11 de junho de 1925, Styron era filho de um engenheiro naval. A mãe morreu quando ele tinha 13 anos e a infância do pequeno William foi atormentada pelas dificuldades próprias do período, quando os EUA atravessavam a depressão econômica que se seguiu ao crack da Bolsa de Nova York, de 1929. Na 2.ª Guerra, ele lutou como tenente da Marinha. Ao ser desmobilizado, iniciou uma fase de militância política que o levou tanto a defender os direitos dos judeus na antiga União Soviética quanto um professor americano perseguido pelo macarthismo.William Styron virou um grande nome das letras quando As Confissões de Nat Turner ganhou o Prêmio Pulitzer, em 1967. Foi uma época de profundas transformações na sociedade americana. O mundo todo estava mudando, mas, nos EUA, o movimento dos negros por direitos civis e os primeiros protestos contra a Guerra do Vietnã já varriam o país quando Styron lançou seu romance que começava de forma tão sugestiva. "O ano de 1831 foi, simultaneamente, há muito tempo e ontem mesmo." Foi o ano em que Nat Turner iniciou seu movimento em Southampton, na Virgínia. Turner era um escravo educado na sociedade branca. Transformou-se num messias selvagem, um salvador de negros oprimidos a quem liderou numa revolta sangrenta.Norman Jewison, que fez naquele mesmo ano No Calor da Noite, ganhando o Oscar de melhor filme, mas não o de direção, imediatamente se interessou pelo livro, mas o projeto foi considerado forte demais, num ano já tão marcado pela tensão racial. Doze anos mais tarde, ele escreveu A Escolha de Sofia e, aí sim, a transformação em filme foi imediata. Três depois, Meryl Streep já ganhava o Oscar por sua interpretação como a judia polonesa forçada a uma escolha brutal pelos nazistas - entre os dois filhos, um menino e uma menina, ela terá de escolher qual viverá. Alan J. Pakula era o diretor, que usou o livro para falar do seu tema favorito, a quebra da confiança, nas relações pessoais ou políticas. Sempre interessado em discutir o mal que os homens fazem a outros homens - a necessidade de dominar é uma das maldições da raça humana, Styron dizia -, ele não era o liberal típico. Styron era mais radical. Amigo do ex-presidente Bill Clinton, também defendia Fidel Castro, a quem visitou, em companhia de Gabriel García Márquez, em 2000.

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