Morre Roberto Szidon

Pianista brasileiro radicado na Alemanha, autor de gravações antológicas, estava com 69 anos

JOÃO LUIZ SAMPAIO, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2011 | 03h09

Morreu na manhã de quarta-feira, em Dusseldorf, na Alemanha, o pianista brasileiro Roberto Szidon. Ele estava com 69 anos e foi vítima de um ataque cardíaco. Nascido em Porto Alegre, viveu boa parte de sua vida fora do País, primeiro nos EUA, onde estudou com Claudio Arrau, e, mais tarde, na Europa.

Szidon andava distante dos palcos nos últimos anos. Nas décadas de 70 e 80, no entanto, foi um dos mais célebres artistas brasileiros em atividade no exterior. Iniciou seus estudos no Rio Grande do Sul e fez seu primeiro recital aos 9 anos. Na hora de optar por uma carreira, resolveu estudar medicina. Mas, no quinto ano do curso, abriu mão da vida médica para voltar à música. Pouco depois, deixaria o País, para onde voltaria mais tarde apenas para apresentações em recitais e concertos com orquestras.

Ainda nos anos 60, pouco depois de completar 20 anos, gravou o primeiro disco com obras de Villa-Lobos - e desde então sua interpretação para peças como Rudepoema seriam tidas como antológicas. Mas seu interesse pelo repertório nacional não se limitava ao autor das Bachianas. Na discografia de Szidon há álbuns dedicados a autores que vão de Radamés Gnatalli a Marlos Nobre, passando por Ernesto Nazareth e uma infinidade de outros nomes (Chiquinha Gonzaga, Glauco Velásquez e Francisco Mignone entre eles) reunidos na coletânea Cem Anos de Piano Brasileiro. "Fisicamente, é um jovem que aparenta 22 anos (tem 31), gordinho, tipo baby-face, de fala mansa e cordial, com pinta de estudante, de filhinho de mamãe. Mas quando se senta ao piano, a transformação que se opera - nele e no ouvinte - é quase sobrenatural", definiu o escritor Carlos Heitor Cony em um perfil do pianista publicado em 1975 na revista Manchete.

Para a Deutsche Grammophon, sua discografia também se abriu para o grande repertório. Gravou Scriabin, Schumann, Beethoven. Nos anos 70, a imprensa afirmava que o número de álbuns vendidos só o colocava atrás de Herbert Von Karajan e Dietrich Fischer-Dieskau. Na mesma época, um jornal alemão, após um de seus recitais, sugeriu que ele fosse a reencarnação de Liszt. "Pessoas ligadas ao espiritismo me diziam isso sempre", ele se divertia em uma entrevista à revista Manchete e, em seguida, definia o que, em sua opinião, caracterizava um grande intérprete. "Você é um bom pianista se apresenta características como um fraseado bonito ou uma técnica sólida. Mas será um excelente pianista se fizer o possível para ser honesto com relação ao compositor e sua partitura e, nesse processo, souber inserir um pouco daquilo que você é. Mas fundamental, não importa o que outros possam dizer, é aceitar que só há um critério para dizer se uma obra é bem ou mal interpretada: se o músico soube tomar como ponto de partida absoluto a proposta do compositor."

Boa parte da sua discografia não está mais disponível. Em sites de venda na internet, por exemplo, um LP em que interpreta Nazareth, parte de uma coleção dedicada à "música romântica para piano" no Brasil, chega a ser vendido por R$ 380. Da mesma forma, é difícil mesurar o que seu baú de inéditos pode esconder, em especial no que diz respeito a gravações feitas ao vivo com grupos como a Filarmônica de Londres, a Sinfônica de Viena ou a Orquestra de Cleveland, das quais era convidado regular.

Em uma entrevista de 1981, ele brincava que não gostava de se impor limites. "Um dia, quem sabe, vou até gravar um disco como cantor, por que não?", disse. "O problema será encontrar um pianista bom, porque, sem modéstia, devo dizer que acompanho muito bem cantores." Um de seus últimos registros comerciais foi feito no início dos anos 90, quando gravou o Dichterliebe e o Liederkreiss de Schumann ao lado do barítono Thomas Quasthoff. E ali mostrou que a brincadeira tinha mesmo um fundo de razão.

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