Morre o Prêmio Nobel de Literatura Naguib Mahfuz

O escritor egípcio e Prêmio Nobel de Literatura Naguib Mahfuz morreu nesta quarta-feira num hospital de Cairo, aos 94 anos, segundo informou a agência "Mena". Mahfuz, que recebeu o Prêmio Nobel em 1988, estava internado há 44 dias no hospital da Polícia do Cairo com problemas pulmonares e renais.O escritor, que há três anos foi hospitalizado em razão de uma repentina crise cardíaca, foi internado no dia 18 de julho para a aplicação de cinco pontos de sutura na cabeça, depois de se machucar ao tropeçar num tapete em sua casa.Durante as últimas três semanas seu estado de saúde piorou consideravelmente devido aos problemas respiratórios. Os médicos acharam necessário usar um respirador artificial.Mahfuz, considerado pelos críticos o maior cronista do Egito contemporâneo, é o único escritor em língua árabe a receber o Prêmio Nobel de Literatura, em reconhecimento a sua longa trajetória como poeta, romancista e articulista. No Brasil, suas obras foram publicadas por várias editoras, destacando-se, entre seus mais de 50 livros, "O Beco do Pilão" (Planeta) e "Noites das Mil e uma Noites" (Companhia das Letras).Seu estado de saúde começou a se deteriorar em 1994, quando um fundamentalista islâmico cravou uma faca no seu pescoço. Ele havia sido acusado por líderes extremistas de ir contra a religião. O atentado causou graves danos à visão e à audição do escritor, assim como a paralisia do seu braço direito.No hospital, Mahfuz foi acompanhado até o último momento por sua mulher, Ateyat, e suas duas filhas, Fátima e Um Kulthom. O maior cronista do Egito contemporâneoNascido em 11 de dezembro de 1911, Najib Mahfuz, casado e pai de duas filhas, era o caçula dos sete filhos de um funcionário de baixa categoria. Ele adquiriu um profundo conhecimento da literatura medieval e árabe no seu curso de graduação.Na Universidade Rei Farouk I (atualmente Universidade do Cairo), onde estudou Filosofia, começou a escrever artigos para revistas especializadas, como "al-Mayal", "al-Yadid" e "al-Risala". A fim de aperfeiçoar seu inglês, em 1932 traduziu para o árabe a obra de James Baikie "O Antigo Egito".Depois de terminar os seus estudos, começou a escrever ficção e publicou diversos relatos nos anos seguintes. Em 1938 publicou a coleção "Murmúrio da loucura".Entre 1939 e 1954, enquanto trabalhava no Ministério de Assuntos Religiosos, publicou três livros de uma série de romances históricos ambientados no período faraônico, que deveria chegar a 40 volumes pelo projeto original. Mais tarde, abandonou o projeto e se dedicou a escrever sobre temas sociais, ao mesmo tempo que escrevia roteiros para o cinema. A esta etapa pertence, por exemplo, "O Princípio e o Fim" (1960), que contou com a participação de um jovem Omar Sharif.Considerado um dos escritores árabes contemporâneos mais inovadores, o tema central de seus romances foi o homem e sua impotência para lutar contra o destino e as convenções sociais.Em 1947 publicou "O Beco dos Milagres", um de seus textos mais famosos. O livro foi levado ao cinema em 1995 pelo diretor mexicano Jorge Fons, que ambientou a história no México, com Salma Hayek no papel de Alma, filha de uma leitora de tarô. O único exibido no Brasil. Sua obra comovente inspirou filmes populares no mundo árabe. Dois anos antes de Fons, isto é, em 1993, outro mexicano, Arturo Ripstein, adaptou para o cinema "O Princípio e o Fim", história de uma mulher miserável e desesperada que sacrifica os três filhos mais velhos para proteger o mais novo."Trilogia do Cairo" tornou o autor popularNo clima de mudança política após a queda da monarquia egípcia, em 1952, sua "Trilogia do Cairo" (1956-1957) fez um grande sucesso. A obra se inspira em sua própria biografia e narra a história de uma família de classe humilde no período de 1917 a 1944.Sua produção chega a cerca de 40 romances e coletâneas de contos, a maioria traduzida para o inglês e o francês. Entre suas obras merecem destaque "O Ladrão e os Cachorros" (1961), "Miramar" (1967) e "Palácio do Desejo" (1990).Ao longo de sua carreira experimentou com a técnica narrativa e especialmente, com o monólogo interior e a literatura do absurdo.Mahfuz foi também um escritor engajado. Por seu apoio incondicional ao tratado de paz entre Egito e Israel, em 1979, foi incluído na lista negra de vários países árabes.No fim dos anos 80, o líder islâmico radical Omar Abdel Rahman, hoje na prisão pelo atentado às Torres Gêmeas de Nova York, condenou o escritor à morte por causa do seu livro mais famoso, "Os Filhos de Nosso Bairro".A obra, que valeu a Mahfuz o reconhecimento mundial, paradoxalmente é proibida no Egito desde a publicação, em 1959, de vários fragmentos num jornal do país.Mahfuz foi alvo de vários atentados. Após a punhalada que levou no pescoçom em 1994, permaneceu praticamente recluso em sua casa, com saídas esporádicas e controladas pela Polícia.PremiaçõesA Academia Sueca premiou o autor egípcio com o Prêmio Nobel de Literatura por "ter elaborado uma arte narrativa árabe com validade universal".Além disso recebeu, entre outros, o Prêmio da Academia da Língua Árabe e o Prêmio Egípcio de Literatura. Candidato ao Prêmio Príncipe de Astúrias em 2000, dá seu nome a um Prêmio de Tradução organizado pelo Instituto Cervantes.Há três anos, foi hospitalizado após sofrer uma repentina crise cardíaca. Sua saúde começou a se deteriorar em 1994, após o atentado, que causou graves danos à visão e à audição, além da paralisia do braço direito.Relação de livros de Mahfuz no Brasil:Noites das Mil e Uma Noites, Companhia das Letras Miramar, Berlendis & Vertecchia Khenaton - O Rei Herege, Record Batalha de Tebas, Record O Jogo do Destino, Record O Jardim do Passado, Record Entre Dois Palácios, Record A Viela de Midaq, Caminho em Busca, Caminho O Beco do Pilão, Planeta Matéria alterada às 14h15 para acréscimo de informações

Agencia Estado,

30 de agosto de 2006 | 07h14

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