Morre o poeta Patativa do Assaré

A cultura popular nordestina perdeu um de seus mestres. Patativa do Assaré morreu em casa nesta segunda-feira, às 18h30, em Assaré, região do Cariri, no Ceará, a 623 quilômetros de Fortaleza. O poeta estava com pneumonia e desde sábado respirava com a ajuda de aparelhos. Patativa será enterrado nesta terça-feira, em Assaré. A família ainda não definiu o horário.Nesta tarde, a neta Fátima Gonçalves já dizia que só um milagre poderia curá-lo. De acordo com a nora Maria Dias Gonçalves, os filhos foram informados pelos médicos que o quadro era irreversível. O poeta popular, de 93 anos, vinha há dois anos com problemas de saúde. Em fevereiro deste ano, ele foi internado no Hospital São Francisco, no Crato, com infecção navesícula e insuficiência respiratória. Recebeu alta em março, afim de comemorar o aniversário de 93 anos em casa. Muitodebilitado, ele não teve condições de participar da festa.Patativa é o nome de um pássaro pequeno e de canto bonito. Por isso, há quase 80 anos, o poeta e cordelista Antônio Gonçalves da Silva ganhou o apelido. Ficou sendo Patativa de Assaré, porque nasceu na localidade de Serra de Santana, no município de Assaré, onde cresceu e viveu a vida dedicada aos versos, que vinham de improviso, aos borbotões, falados, quase nunca escritos.Filho do agricultor Pedro Gonçalves da Silva e de Maria Pereira da Silva, Patativa do Assaré nasceu em 9 de março de 1909, foi criado junto com seus quatro irmãos para o ofício da enxada. Por causa do jeito sério, ainda menino ganhou o apelido de Sinhozinho. No primeiro ano de vida, perdeu uma vista. Mais adiante, vendo alguém entretido com livros de cordel, resolveu que seria cordelista.Para isso, alfabetizou-se. Aos 20 anos publicou um texto no jornal Correio do Ceará. Era sua estréia nas letras impressas. Mas teve de esperar para ver o primeiro livro publicado: Inspiração Nordestina só sairia em 1954. Inspiração nordestina, por sinal, era ele mesmo. Seus cordéis tinham circulação naturalmente restrita, mas Patativa era famoso no Brasil inteiro desde os anos 60. Quem não o conhecia sabia que era a voz maior da poesia popular nordestina. "Eu sou de uma terra que o povo padece Mas não esmorece e procura vencer. Da terra querida, que a linda cabocla De riso na boca zomba no sofrê Não nego meu sangue, não nego meu nome. Olho para a fome, pergunto: que há? Eu sou brasileiro, filho do Nordeste, Sou cabra da Peste, sou do Ceará."(estrofe da música "Cabra da Peste") Patativa só foi gravar um disco em 1979, por iniciativa do também cearense Raimundo Fagner. Antes, porém, sua arte tinha chegado, em livro, a um público do Sul que soube perceber a maravilha de sua obra. Foi com a publicação de Cante lá que Eu Canto cá, editado pela Vozes, em 1978. No ano passado, a editora Hedra publicou um volume com cinco folhetos de Patativa, como título da Coleção Cordel. O livro foi preparado por um estudioso belga e aberto com um ensaio da francesa Sylvie Debs, da Universidade Robert Shuman, de Estrasburgo. Ainda no ano passado, a editora do CPC-Umes publicou a biografia O Poeta do Povo - Vida de Obra de Patativa do Assaré, de Assis Ângelo.O livro é graficamente belíssimo. As imagens, quase todas em cor, de Gal Oppido, muito conhecido pelas capas de disco e fotos de músicos que faz, são expressivas, trabalhadas em cores fortes, as cores do agreste. Infelizmente, o livro traz, também, uma série de textos de apresentação em que os apresentadores aproveitam para fazer auto-homenagem. Essas intromissões dão ao Poeta do Povo um ar provinciano e cabotino. Devem ser ignoradas em nome da homenagem ao genial improvisador.Assis Ângelo fala da paisagem, dos personagens, do tempo, da geografia da terra do poeta, numa narrativa que flui saborosamente. Em que pesem as falhas, tem o mérito de ter sido publicado quando o poeta ainda vivia.Patativa do Assaré era uma lenda, à qual nem mesmo a televisão resistiu. Em 1993, ele participou da novela Renascer, da TV Globo, e o autor Benedito Ruy Barbosa fez um personagem de outra novela dizer um poema de Patativa. Seus versos setessilábicos são ousados, originais, amorosíssimos: "Meu Assaré pequenino Sou também um pigmeu Eu vejo que meu destino Foi sempre ligado ao seu Tu pobre e desprotegido E eu velho e desiludido De um horizonte de amor Seguimos a nossa meta Feridos da mesma seta Sofrendo da mesma dor Desde o vale até a serra Te canto e tenho cantado Quem não ama a sua terra É um desnaturalizado Quando o coração desfeito Bater dentro do peito Sua derradeira nota Eu sei que a terra me come Mas tu ganharás o nome De um poeta patriota." Leia texto sobre poesia de José Nêumanne Pinto: As cem rimas mais ricas do século 20 no Brasil

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