Morre o poeta Lêdo Ivo

O "artesão do verso", na definição da escritora Ana Maria Machado, sofreu infarto na Espanha, onde passaria o Natal

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2012 | 04h36

O escritor alagoano Lêdo Ivo passava as festas de Natal em Sevilha, na Espanha, quando se sentiu mal durante o jantar de sábado. Levado para o hotel onde estava hospedado, ele recebeu os primeiros socorros, mas morreu nos braços do filho, o pintor Gonçalo Ivo, de infarto, antes de ser encaminhado ao hospital da cidade.

Poeta, ensaísta, ficcionista, membro da Academia Brasileira de Letras (ocupava a cadeira de número 10), Lêdo Ivo estava com 88 anos. A presidente da ABL, Ana Maria Machado, disse ontem ao Estado que a instituição vai financiar a cremação do corpo, ainda na Europa. E as cinzas, quando chegarem ao Brasil, deverão ser depositadas no mausoléu da academia.

A morte de Ivo surpreendeu Ana Maria. "Era um cultivador da vida, homem muito dinâmico, que gostava de contar histórias em alta voz, estimulando o bom relacionamento", contou ela, que decretou luto de três dias e marcou sessão reservada de homenagem ao escritor no dia 10 de janeiro. "Também revelava um incrível dinamismo, viajando constantemente (também para fora do País, quando era financiado pelo filho) para as feiras literárias que o convidavam."

Ainda segundo Ana Maria, Lêdo Ivo lutava contra um câncer de próstata, assunto que ele preferia manter em sigilo. "Lêdo comentava, e mesmo assim de forma discreta, com apenas alguns colegas da academia", disse ela, que guarda a imagem de um homem alegre. "Lêdo era um membro muito assíduo, grande contador de casos. Tinha uma vitalidade espantosa, gostava de comer bem."

Nascido em 1926, em Maceió, Alagoas, Lêdo Ivo estreou na literatura em 1944 com o livro de poesia As Imaginações. No ano seguinte, veio o primeiro prêmio da carreira, Olavo Bilac, oferecido pela ABL para o livro Ode e Elegia. Logo se tornou membro da chamada Geração de 45, que se insurgiu contra as propostas anarquistas do primeiro Modernismo. "Ele defendia, de fato, a exatidão métrica dos poemas, ao contrário do que pregavam os modernistas", comenta Ana Maria Machado. "Era um artesão da poesia"

A rigidez, no entanto, não barrava seu bom humor. Em 2004, quando foi lançado pela editora Topbooks um enorme volume com toda a poesia de Lêdo Ivo, José Nêumanne, articulista do Estado, assim recebeu o "reconhecimento de seu alto posto de lírico-mor da Pátria": "A melancólica expressão de seu rosto, reforçada pelo franzir do cenho e pelo marcante desenho da sombra de ruga baixando da narina à comissura do lábio no lado esquerdo, pode, de fato, refletir um mergulho nos mistérios nem sempre gozosos da vida delatada pela poesia", observou. "Mas não deverá ocultar a irreverência, o humor, a ironia e muitas vezes o sarcasmo com que o poeta exibe as fragilidades da condição humana, sem ocultar as do próprio estro."

Sempre na ativa, publicou, em 2004, o longo poema Réquiem, inspirado pela dor provocada pela perda da mulher, Maria Lêda. No livro, os versos são intercalados com pinturas do filho, Gonçalo Ivo, também autor da capa, simples e branca, atravessada por fios que lembram uma pauta musical ou uma rede elétrica povoada por andorinhas.

Lêdo Ivo também foi romancista (Ninho de Cobras, de 1973, foi traduzido para diversos idiomas) e memorialista - em O Vento do Mar, de 2010, ele misturou gêneros para traçar um perfil de si mesmo e de alguns célebres contemporâneos - Graciliano Ramos, por exemplo, é apontado como um stalinista, pai extremoso, racista impenitente e amante fiel do vernáculo.

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