Morre o jornalista e ex-senador Artur da Távola

Ele, que viveu entre a política e a cultura, tinha 72 anos e sofria de insuficiência cardíaca grave

Clarissa Thomé, Márcia Vieira e Fabiana Cimieri,

09 de maio de 2008 | 19h48

O jornalista, escritor e político Artur da Távola morreu na tarde desta sexta-feira, 9, em sua casa, no Leblon, na zona sul do Rio. Ele tinha 72 anos e sofria de insuficiência cardíaca grave. Não resistiu ao terceiro enfarte - sofreu o último cinco anos atrás. Talvez ele seja mais lembrado mais recentemente por sua atividade política, mas Artur da Távola foi um jornalista que manteve um estreito vínculo com as áreas da cultura. Como jornalista, foi redator e editor de revistas da Bloch Editores. Mantinha uma coluna na revista Amiga, (leia texto) especializada em televisão, foi colunista também dos jornais O Globo e O Dia e chegou a apresentar o programa Quem tem medo de música clássica?, na TV Senado. Como um homem ligado ao rádio, aproveitou seu mandato como senador e elaborou o projeto de lei de 1999 que criou o Museu do Rádio, para contar a história e a influência do rádio no País, por meio da utilização de arquivos e gravações originais dos anos 40 e 50. Paulo Alberto Moretzsohn Monteiro de Barros, como o jornalista foi registrado, morreu dormindo. Seu corpo foi encontrado pelo filho caçula, o ator André Barros, de 42 anos, por volta do meio-dia. "Eu estava vindo para cá, para a gente almoçar. Quando cheguei ele estava dormindo e percebi o que tinha acontecido", disse André. "Ele estava bem. A morte de meu pai pegou todo mundo de surpresa", completou. A saúde do jornalista vinha se deteriorando desde o último enfarte. Em setembro do ano passado, foi submetido a uma cirurgia para colocação de um desfibrilador - aparelho que reanima o coração quando os batimentos baixam. Após a cirurgia, teve uma infecção e passou 100 dias internado. Recebeu alta em 24 de dezembro. Quando seu estado de saúde se agravou, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), de quem era muito amigo, chegou a sugerir sua transferência para a capital paulista, a fim de que fizesse transplante de coração. Mas os médicos não recomendaram. Nos últimos tempos, vinha retomando suas atividades. Ia à Rádio Roquette Pinto, da qual era diretor, pelo menos uma vez por semana. Os filhos André e Leonardo (um dos donos da Conspiração Filmes) - Távola também era pai de Eduardo - contaram que ele acompanhava a programação de casa. A família decidiu realizar o velório em casa, durante a madrugada. Neste sábado, o corpo seguirá para a Assembléia Legislativa, onde será velado, e o enterro está previsto para as 16 horas, no Cemitério São João Batista.  Como político, Artur da Távola foi senador e presidente do PSDB de 1995 a 1997, além de fundador do partido e amigo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Deixou o PSDB em agosto de 1999 por discordar de atitudes que considerava antidemocráticas por parte do governo FHC, como nomear para a pasta da agricultura Pratini de Moraes, que foi ministro de Médici, general que presidiu o País durante a ditadura militar (1969 -1974), e condecorar Alberto Fujimori, que presidiu o Peru com mão de ferro de 1990 a 2000. Uma reação que talvez se explique pelo fato de ter sido cassado pela ditadura militar, sendo obrigado a se exilar na Bolívia e no Chile entre 1964 e 1968.    Entre a política e a cultura  Leia um trecho de artigo do jornalista Fernando Mitre, publicado no Jornal da Tarde, em 25 de abril de 1998, aponta para a relação do senador Artur da Távola com a cultura, e como ele a vinculava à política. 'Poesia na Tribuna do Senado', por Fernando Mitre "Quando sintonizei a TV Senado, na madrugada de ontem, vinha da tribuna um  inusitado discurso:"Correi! Um dia vos verei mais belasQue os diamantes de Ofir e de GolcondaFulgurar na coroa de martíriosQue me circunda a fronte cismadora."O que era isso em plena sessão do Senado Federal? Era simplesmente o senador tucano Artur da Távola (ele deixou o PSDB em 1999) declamando o poema Cântico do Calvário do nosso Fagundes Varela.  Foi a forma que ele encontrou para expressar a emoção adequada no momento em que os senadores lamentavam a perda do deputado Luís Eduardo e a dor (essa só mesmo a poesia talvez possa verbalizar) do pai Antônio Carlos.  O poema Cântico do Calvário nasceu do desespero de Fagundes Varela diante da morte prematura de seu filho Emiliano. É, seguramente, a obra-prima daquele romântico atormentado e infeliz: "Se há milagre poético, devemos procurá-lo nessa longa peça", diz o mestre Antonio Candido. "Não baixa um só momento o admirável vôo lírico de uma das mais puras emoções da nossa literatura." Na obra irregular de Fagundes Varela, na qual há fortes doses de mediocridade, como no longo e lamentável "Anchieta ou O Evangelho nas Selvas", este belo poema nascido da dor brutal do pai que enterra um filho surpreende não só pela qualidade em si.  Varela aqui impressiona também por criar o seu melhor texto poético deixando de lado a característica de brilhante mestre de rimas. É no verso branco que o poeta infeliz transforma em linguagem e enriquece seu sofrimento num "grito da alma quase até o limite do fôlego" (Antonio Candido), que começa já propondo o "vôo lírico": "Eras na vida a pomba predileta..." Não é a primeira vez que Artur da Távola, um estudioso da linguagem, mostra sua sensibilidade para a poesia no Senado Federal.  Em abril, zapeando pela madrugada, deparei com o mesmo senador fazendo um brilhantíssimo pronunciamento sobre ...(adivinhe)... Pixinguinha.  Diante de uma platéia atenta - alguns senadores algo perplexos, naturalmente -, Artur da Távola dimensionava a obra e a importância do autor do clássico Carinhoso. Comemorava-se o centenário de Pixinguinha, que, entre debates sobre reformas constitucionais e outros temas nem sempre maiores, ganhou um surpreendente e merecido espaço na pauta do Senado.  Na madrugada dessa sexta-feira, sob o impacto da morte de Luís Eduardo, os senadores tentavam - alguns demonstrando precários recursos verbais - cumprir a difícil tarefa de expressar a emoção do momento. O senador Pedro Simon, que passou pelo supremo sofrimento de perder um filho ainda criança, destaca-se, naturalmente, entre os outros. Mas não há nenhuma dúvida de que a poesia falou mais alto.  O belo poema do século passado, levado ao Senado naquela noite, só poderia mesmo demonstrar sua superioridade diante da pobreza dos lugares-comuns emocionados de tantos senadores. Mas, certamente, todos se enriqueceram ouvindo a poesia, principalmente os mais surpreendidos. Octavio Paz, grande poeta e ensaísta, outra lamentável perda da semana, explicaria isso com enorme facilidade:"Todas as nossas versões do real - silogismos, descrições, fórmulas científicas, comentários de ordem prática - não recriam aquilo que pretendem exprimir. Limitam-se a representá-lo ou descrevê-lo."E a poesia? Ora, o verso "evoca, ressuscita, desperta, recria... nos faz recordar o que esquecemos: o que somos realmente."

Tudo o que sabemos sobre:
Artur da Távolaex-senadorjornalita

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.