Morre o dramaturgo Carlos Soffredini

Morreu hoje o diretor e dramaturgo Carlos Alberto Soffredini, autor de peças, roteiros e novelas, como Brasileiros e Brasileiras, a convite de Walter Avancini no SBT. Aos 61 anos, ele estava internado havia 17 dias no Hospital São Paulo - os três últimos na UTI - por causa de insuficiência respiratória aliada a complicações causadas pela diabete. Hoje, às 4h30 da madrugada, sofreu uma parada cardíaca. O corpo foi velado no próprio hospital e a cerimônia de cremação está marcada também para hoje, no Crematório de Vila Alpina.Autor de sucessos teatrais como Na Carrera do Divino - peça que projetou profissionalmente o ator e diretor Paulo Betti - e Vem Buscar-me Que Ainda Sou Teu, Soffredini pautou sua carreira pelo desejo de levar à cena a linguagem popular do circo-teatro e das revistas. "Não para fazer o teatro que era feito na época, mas para beber nessas fontes, para chegar a um teatro popular e brasileiro", dizia. Numa de suas últimas entrevistas, reclamou do "formalismo" em nossos palcos. "Os atores estão sendo engolidos pelo excesso de formalismo. Parece que aprenderam interpretar através de fitas do Instituto Goethe."Soffredini começou a interessar-se por teatro em 1957, ao ser convidado por Patricia Galvão, a Pagu, para integrar um grupo de teatro. A coisa não foi para a frente, mas ao entrar na Faculdade de Filosofia, em Santos - onde nasceu - fundou o próprio grupo com colegas de turma, como Ney Latorraca e Jandira Martini. Sua primeira direção foi de Vestido de Noiva, de Nélson Rodrigues. Quando o grupo da faculdade acabou, mudou-se para São Paulo e entrou para a Escola de Arte Dramática.Aos 27 anos, escreveu sua primeira peça premiada e, a um só tempo, censurada: O Caso dessa Tal Mafalda Que Deu Muito o Que Falar e Que Acabou Num Dia de Carnaval. Por esse texto, ele recebeu o primeiro lugar no Concurso de Dramaturgia do Serviço Nacional de Teatro, um prêmio importante na época, que chamou atenção sobre o jovem dramaturgo. A peça contava a história de uma prostituta de periferia que muda para um bairro de classe média e é desprezada pela vizinhança.Na década de 70 fundou o Grupo Mambembe, com o qual realizou a primeira montagem de Vem Buscar-me Que Ainda Sou Teu, com os atores Genésio de Barros e Rosi Campos no elenco. Essa peça seria remontada em 1990, com igual sucesso, pelo diretor Gabriel Villela, com Laura Cardoso e Xuxa Lopes. Na mesma época, foi convidado pelo grupo Pessoal do Victor para criar um texto. Nascia Na Carrera do Divino, a saga de um caipira em três atos: a vida socializada no campo, a chegada do capital e da propriedade privada e a expulsão para a cidade. O musical fez um sucesso estrondoso, arrebatando 12 prêmios entre os principais da época: APCA, Molière e Mambembe.Em 1979, Soffredini era um autor de grande sucesso. Três peças em cartaz e muitos prêmios. Além de Na Carrera e Vem Buscar-me, estava em cena Dercy Biônica, texto escrito por ele especialmente para a atriz popular Dercy Gonçalves, com quem, por sinal, discutiu muito. "Ela cortou pedaços do meu texto, adaptou outros. Mas foi uma ótima experiência para mim." Soffredini jamais recusou-se a dar créditos a seus colaboradores. "Tudo o que sei de direção devo a Myriam Muniz" disse em entrevista, referindo-se à atriz e professora na EAD.Críticos como Sábato Magaldi apontaram em Soffredini o desejo de ir buscar no passado uma linguagem teatral ainda não influenciada pela transformação trazida pelos diretores europeus a partir da década de 40. Soffredini assumia essa busca, mas fazia questão de não manter "pura" essa linguagem. Misturá-la com as conquistas e a cultura do presente foi o que fez, por exemplo, em Pássaro do Poente. Nessa peça, dirigida por Márcio Aurélio e encomendada por atores nisseis do Grupo Ponkã, Soffredini mesclou a poética melodramática e derramada do caipira brasileiro com a formalidade do cabúqui e do nô, para contar uma lenda oriental semelhante à conhecida história da galinha dos ovos de ouro."Minha preocupação como teatrólogo sempre foi a de mostrar o povo brasileiro em seus costumes, hábitos e mentalidade", disse Soffredini. E o fez também no cinema. Em 1985, ganhou um Kikito no Festival de Cinema de Gramado pelo roteiro de Marvada Carne, filme de André Klotzel, estrelado por Fernanda Torres. "Gosto de escrever para mulheres. Como dramaturgo, meus melhores papéis e falas são sempre de personagens femininas."As comédias Vacalhau & Binho 1 e Vacalhau & Binho 2, também de Soffredini, ainda estão em temporada. Na primeira Soffredini costurou textos de um artista para lá de popular: Zé Fidélis, um comediante de muito sucesso no rádio, nas décadas de 30 e 40. Além de suas peças que, com certeza, ainda voltarão ao palco em novas montagens, Soffredini deixa duas filhas, uma delas, a atriz Renata Soffredini, cuja carreira teve início na Companhia Mambembe, criada pelo pai.

Agencia Estado,

10 de outubro de 2001 | 15h59

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