Marina Malheiros/AE
Marina Malheiros/AE

Morre o cronista Telmo Martino

Famoso pela coluna que escreveu no ‘Jornal da Tarde’ nos anos 1970 e 80, ele criava amigos e desafetos com inteligência

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

03 Setembro 2013 | 18h26

Nos anos 1970 e 80, o termo ‘celebridade’ ainda não estava em voga, mas ninguém poderia ser reconhecido como tal se não ganhasse linhas elogiosas na coluna que o jornalista Telmo Martino publicava no Jornal da Tarde. Em outras palavras, ninguém era ninguém em São Paulo se não fosse lembrado por ele.

 “Chocho quando elogiava, Telmo corroía ao fustigar suas antipatias”, comentou Humberto Werneck, em um texto publicado no Estado em 2011. “A coluna, que levava seu nome, parecia um carrossel no qual giravam umas poucas, obsessivas personagens, talvez menos de cem, às quais se grudavam sempre os mesmos venenos”, continua Werneck, que conviveu na redação do JT com Martino, morto na madrugada de terça, no Rio, aos 82 anos, de complicações decorrentes de uma pneumonia – estava internado desde 22 de agosto.

E era um veneno capaz de provocar choro e intenções de assassinato da parte dos citados, às terças, quintas e sábados, quando era publicada a coluna, que, de uma forma geral, despertava gargalhadas do leitor. Afinal, em uma época em que as colunas sociais se limitavam a fazer elogios de casamentos e batizados de bacanas, Telmo Martino não apenas apresentava uma crônica da vida cultural e social de São Paulo como também sintonizava a cidade com Nova York, Paris, Rio e, claro, Londres, fontes de informações que vinham embrulhadas em um fino humor.

 “As pessoas liam Telmo e saíam repetindo seus epítetos, piches e definições”, observou Ruy Castro, em uma crônica publicada pelo Estado em 2004, quando foi lançado um livro, Serpente Encantadora (Planeta), com seleção de suas melhores crônicas. “Telmo apostava que o leitor sabia tanto quanto ele e não se preocupava em ficar explicando. O fato de ter sido um constante sucesso durante dez anos é a prova de que tinha leitores de alto nível em quantidade suficiente para continuar sendo publicado.”

Humberto Werneck considerava que o melhor da escrita de Telmo Martino eram as “turmas” que ele delimitou e nomeou. “Numa paisagem em que pululavam bichos-grilos, rótulos como ‘barba-e-bolsa’ e ‘poncho-e-conga’ dispensavam explicação. Uma colônia italiana endinheirada e melômana constituía o pessoal do ‘Scala-e-escarola’. Paulo Maluf e outros descendentes de libaneses formavam o bando do ‘quibe-e-quilate’, a um tempo glutão e exibido, e assim por diante.”

Martino foi colega de Paulo Francis e Ivan Lessa, formando um trio de jornalistas cultos, críticos e sofisticados. Antes de chegar ao JT, em 1971, passou pelas revistas Senhor e Diners e pelos jornais Última Hora e Correio da Manhã. Criou inimizades, recebeu ameaças e até um chute no traseiro, desferido pelo poeta Mario Chamie.

 

FRASES AFIADAS

Fernando Henrique Cardoso era, para Telmo Martino, o “sénateur mulâtre” ou o “parvenu do palanque”.

Patrício Bisso, artista, “uma mistura de Betty Boop, Bette Davis, Betty Grable, Betty Ford e Lady Macbeth”.

Franco Montoro, ex-governador, era “o último fã de Zasu Pitts”.

Elba Ramalho, “a frajola do flagelo”.

Cecília Meireles, “a poetisa à prova de Fagner”.

Betty Milan, “a La Goulue do Lacan-can-can”.

Othon Bastos, “o ator que poderia ter sido Johnny Carson, mas preferiu ser Ferreira Neto”.

A revista ‘Nova’ era definida como “o Kama-Sutra das estenodatilógrafas”.

Mais conteúdo sobre:
Telmo Martino

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.