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Morre o cineasta e diretor teatral francês Patrice Chéreau

Cineasta, ator, diretor de teatro e de óperas, francês tinha 68 anos

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

07 de outubro de 2013 | 16h56

Morreu nesta segunda, 7, em Paris, o cineasta Patrice Chéreau. Ator, diretor de teatro e de óperas, ex-curador do Louvre e escritor, Chéreau tinha 68 anos e lutava contra um câncer no pulmão. Foi uma grande personalidade artística na França mas, no exterior, inclusive Brasil, sua imagem ficou marcada por seus filmes, em especial pelo notável Rainha Margot, no qual dirigiu uma Isabelle Adjani possuída pelo papel da rainha trágica.

Chéreau era tão versátil que, além de tantas funções, também se notabilizou como ator. Trabalhou em filmes famosos como Danton – o Processo da Revolução, do polonês Andrzej Wajda, O Último dos Moicanos, do norte-americano Michael Mann, e O Tempo do Lobo, do alemão, radicado na Áustria, Michael Haneke.

Para o cinema trouxe toda a informação e a sensibilidade acumuladas na ópera e no teatro. Quer dizer, o senso do drama, a razão cênica, o valor dramático dos figurinos e das cores, a importância do texto, a função da música. Margot, sua melhor obra, tem tudo isso. Quer dizer, uma combinação feliz de elementos, que redunda em espetáculo de grande impacto estético e emocional.

Uma Isabelle Adjani fora de qualquer padrão “normal” de interpretação faz Margot, na história francesa chamada de a “rainha devassa”. A italiana Virna Lisi é Catarina de Médicis, mãe de Margot e “chefe” de um clã masculino em luta sem tréguas pelo poder. Vincent Perez vive La Môle, amante de Margot, e Daniel Auteuil faz o rei de Navarra, marido da rainha e o futuro rei de França, com o nome de Henrique 4º.

O interessante é como Chéreau, imerso nas contraditórias paixões humanas, não negligencia o pano de fundo histórico, vital em uma época de guerra de religiões que culmina na Noite de São Bartolomeu, o massacre dos protestantes pelos católicos. Os fatos sangrentos aconteceram nos dias 23 e 24 de agosto de 1572 e a violência espalhou-se pelo interior do país nos dias seguintes. As crônicas registram mais de 3 mil protestantes assassinados apenas em Paris.

O filme, de 1994, ganhou o Prêmio Especial do Júri do Festival de Cannes e rendeu a Virna Lisi a Palma de melhor atriz. A marca de Chéreau está em cada fotograma. Sua paixão operística imprime tensão incomum a uma história de violência e paixão. Os atores e atrizes, em especial a Margot de Adjani, mas também seus irmãos, e a matriarca Catarina, vivida por Virna Lisi, são possuídos por uma estranha força. O vigor decorre também do registro fotográfico, com o vermelho do sangue e da pompa eclesiástica como cor dominante.

Mas esse registro muda para o negro e os tons escuros na imagem de Catarina de Médicis, caracterizada como uma figura do Mal, embora não destituída de matizes.

Apesar da emoção, Margot tenta dosar emoção humana e a razão política. Ao lado de uma história cruenta e folhetinesca, busca uma reflexão sobre o poder e, sobretudo, sobre os perigos da intolerância religiosa, o que revive aquele longínquo episódio histórico para a compreensão da atualidade.

Menos conhecidos do público são outros filmes de Chéreau, como Perseguição, Quem me Amar Irá de Trem e Gabrielle. A obra cinematográfica do diretor acabou se ressentindo da rarefeita divulgação do cinema de francês em nosso circuito exibidor. Talvez tenha sido considerado, nas obras posteriores a Margot, como autor difícil e portanto de limitada comunicação com o público.

Intimidade, no entanto, foi outro filme que teve circulação, com sua história do casal que se encontra para fazer sexo sem que um não saiba o nome nem a história do outro. Mais uma vez, a questão do paroxismo amoroso e sexual, tema caro ao diretor desaparecido.

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