Marcos Mendes / AE
Marcos Mendes / AE

Morre o artista Wesley Duke Lee

Inquieto e provocador, ele tinha 78 anos e sofria do mal de Alzheimer

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2010 | 00h00

O "realista mágico à sua disposição", é como o artista paulistano Wesley Duke Lee brincava ao se apresentar para as pessoas. Criador provocativo e inquieto, ele morreu na madrugada de ontem, no Hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo, aos 78 anos. Diagnosticado, há cerca de 3 anos, com o mal de Alzheimer, sua morte ocorreu por broncoaspiração e parada cardíaca em decorrência de sua doença, como afirma a sobrinha do artista, Patricia Lee. Segundo ela, não será realizado velório, mas cerimônia hoje, às 16 horas, no crematório Horto da Paz, em Itapecerica da Serra. "Colocaremos na ocasião uma frase que ele sempre dizia, "A verdade não pode ser dita, só revelada"", diz Patricia.

Desenhista, gravador, pintor e professor, Wesley Duke Lee nasceu em 21 de dezembro de 1931. A década de 1960 foi especial para o artista, um dos introdutores da Nova Figuração no Brasil. Na época, ele promoveu ações polêmicas que se tornaram emblemáticas de sua carreira, como a realização do happening O Grande Espetáculo das Artes, em outubro de 1963, no João Sebastião Bar, na Rua Major Sertório, em São Paulo - apresentou para uma multidão desenhos eróticos de sua famosa Série das Ligas vistos com lanternas em meio a um strip-tease -; a criação, em 1966, da Rex Gallery com os artistas Geraldo de Barros, Nelson Leirner, José Resende, Carlos Fajardo e Frederico Nasser; ou ainda de trabalhos/ambientes que são considerados as primeiras experimentações do que hoje conhecemos por instalação, como Trapézio (1966) e Helicóptero (1969).

Neste momento, duas iniciativas felizes homenageiam o artista. Em julho, o marchand Max Perlingeiro, diretor da Pinakotheke Cultural, inaugurou a mostra Wesley Duke Lee na sede da instituição, no Rio, com 65 desenhos, pinturas, "obras ambientais" e objetos realizados pelo criador entre 1952 e 1999 - acompanhando a exposição, foi lançado amplo livro. A mostra, que fica em cartaz no Rio até 2 de outubro, virá para o espaço da Pinakotheke em São Paulo, ficando em cartaz entre 23 de outubro (coincidentemente, a mesma data em que Wesley realizou O Grande Espetáculo das Artes, em 63) e 5 de dezembro. "Pela visitação que temos da mostra, é possível ver que a nova geração não conhecia suas obras", afirma o marchand.

Curioso ainda é que Perlingeiro emprestou uma das obras da exposição, o tríptico O Nome do Cadeado É: As Circunstâncias e Seus Guardiães, de 1966, para a sala com curadoria de Fernanda Lopes que a 29.ª Bienal de São Paulo vai dedicar ao Grupo Rex. A Rex Gallery movimentou a cena de São Paulo entre junho de 1966 e maio de 1967 com happenings, mostras e evocações de uma maneira alternativa de se fazer mercado.

Marginalizado. De origem paterna norte-americana, Wesley Duke Lee teve sua formação na publicidade e propaganda. Em 1951, cursou desenho no Masp, mas entre 1952 e 1955 viajou para Nova York para estudar artes gráficas na Parson"s School of Design. A experiência nos EUA foi fundamental para o pensamento do artista, que se interessou pela arte pop americana e ainda pelas ideias do francês Marcel Duchamp.

De volta ao Brasil, estudou, em 1957, em São Paulo com o pintor Karl Plattner (1919-1989) e logo depois se mudou para a Europa, vivência importante em sua formação, já que Wesley tinha apreço pela cultura clássica e pela mitologia - tanto que criou alter egos para si, entre eles, Arkadin, criado a partir da ideia de Arcádia.

Mas Wesley se viu "marginalizado" pela crítica no Brasil quando retornou definitivamente em 1960. Fundou em 1963 o movimento do Realismo Mágico e fez nesse ano, ainda, as fotografias que ilustraram o livro Paranoia, de Roberto Piva. Entretanto, era artista de direita, mesmo durante um momento político (ditatorial) em que isso era rejeitado pelo meio artístico.

A última retrospectiva do artista ocorreu em 1992, no Masp e no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio.

DEPOIMENTOS

Cacilda Texeira da Costa

Historiadora de arte

"Wesley foi o iniciador da instalação no Brasil na época de Hélio Oiticica e Lygia Clark, um inovador, experimentador, com uma alegria que iluminava qualquer ambiente em que entrava. Era mesmo de direita, mas isso não teria problema se suas obras tivessem sido entendidas pela crítica que, na verdade, misturava os canais."

Nelson Leirner

Artista

"Vejo Wesley como um visionário. Quase não se envolvia politicamente, nunca teve uma grande ligação com o resto do Brasil."

Antonio Dias

Artista

"Soube ler e mandar mensagens sobre seu tempo, procurou aproximar pessoas e foi sempre blasé com o mercado."

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