Morre na França o escritor Alain Robbe-Grillet

Alain Robbe-Grillet, um dos grandes autores do nouveau roman, movimento literário que há meio século renovou a literatura francesa, morreu hoje, aos 85 anos, vítima de doença cardíaca. A morte do autor foi comunicada pela Academia Francesa, da qual fazia parte desde 2004, ocupando o lugar deixado pelo romancista e historiador de arte Maurice Rheims (1910-2003). Robbe-Grillet, mais conhecido por sua colaboração no roteiro do filme "O Ano Passado em Marienbad" (1961), dirigido por Alain Resnais, anda esquecido pelos editores brasileiros, que não mantêm em catálogo títulos fundamentais do escritor francês, entre eles "O Ciúme" (escrito em 1957 e publicado aqui pela Nova Fronteira), considerado por Vladimir Nabokov um dos grandes romances do século 20. "O Ciúme", terceiro romance escrito por Robbe-Grillet, pode não ser tão conhecido como outros títulos seus, mas revela muito sobre o autor e sua tentativa de estabelecer com o leitor uma relação bem diferente daquela que o romancista do século 19 mantinha com seu público. Primeiro, é um livro ambientado numa plantação de banana, paisagem que Robbe-Grillet conhecia muito bem por ter trabalhado numa delas (na Martinica) como engenheiro agrônomo. Segundo, porque ele jamais usa a primeira pessoa do singular para descrever o que vê. O narrador não é onisciente e pode levar o leitor ao engano, ao adotar o ponto de vista de um marido traído que testemunha o caso extraconjugal de sua mulher com um vizinho. Como em "O Ano Passado em Marienbad", o tempo de Robbe-Grillet é um tempo hawkinguiano, isto é, o narrador está fora dele, num "pantempo" em que tudo ocorre simultaneamente, cruzando presente e passado. No filme de Resnais, a inconsistência da memória domina a narrativa sobre outro caso extraconjugal. Mais uma vez, são dois homens e uma mulher num triângulo em que o desejo é projetado sem que os protagonistas tenham o mínimo controle sobre ele. Num luxuoso hotel barroco, um homem (Giorgio Albertazzi) tenta convencer inutilmente uma mulher (Delphine Seyrig) que conheceu no ano anterior e que prometera fugir com ele dentro de um ano. O espectador, desconcertado, vê a mulher, mesmo "esquecida", cumprir a promessa, desafiando o marido possessivo (Sacha Pitoeff), num tempo que nada tem de linear, mas planar. Labirinto Conduzido por corredores sem fim desse hotel barroco e perdido no território indiferenciado de seu jardim, onde as figuras humanas são apenas pontos, o espectador logo se dá conta da proximidade de Robbe-Grillet e do argentino Jorge Luis Borges, ambos fascinados pela idéia do labirinto. Não sem razão, alguns dos livros de maior apelo escritos por Robbe-Grillet têm como referência visual obras de pintores surrealistas, como "A Bela Cativa" (1975), inspirado em René Magritte e filmado pelo autor em 1982. São 77 telas do pintor surrealista evocadas num filme sobre uma misteriosa mulher que fascina um obsessivo assassino e depois desaparece, após passar dias trancada com ele num quarto. Mais uma vez, a imprecisão de época e lugar (como em Marienbad) tomam conta desse policial que ainda preserva as principais características do nouveau roman - imagens recorrentes, tempo irreal e um jogo em que o leitor é convidado a livres associações, tentando adivinhar o que está por trás dos detalhes. Sendo fundamentalmente subjetivo, o noveau roman recusa a fórmula do romance do século 19, incluindo aí suas aspirações psicológicas e metáforas (Robbe-Grillet considerava que mesmo Albert Camus era herdeiro dessa tradição).

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.