Morre na frança a atriz Annie Girardot

Tudo começou de forma inesperada, há alguns anos, em Montevidéu. A atriz francesa Annie Girardot deveria se apresentar num teatro local. A peça, Master Class. No palco, ela não conseguia se lembrar de suas falas. Os organizadores do evento creditaram o fato ao estresse produzido pelo jet leg. Era muito mais grave. Foi a primeira manifestação do mal de Alzheimer que, se agravando, levou a grande Annie a ser internada numa clínica de Paris, onde ela morreu ontem, aos 79 anos.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2011 | 00h00

Cada vez mais o cinema tem se interessado por essa doença que consome a memória e, com ela, a própria identidade das pessoas. As vítimas de Alzheimer estão condenadas ao próprio esquecimento. O caso de Annie Girardot é exemplar. Na clínica, está internado seu irmão, vítima do mesmo mal. Ocorria de ficarem lado a lado, mas sem se reconhecer.

Sendo ela uma pessoa tão conhecida - fez mais de 100 filmes, a partir de 1955 -, os franceses a transformaram num símbolo. O diretor Nicolas Beaulieu dedicou-lhe um filme, E assim Vai a Vida. Durante oito meses, ele acompanhou com sua câmera uma Annie Girardot que ia perdendo consciência de si mesma. O cinema francês resolveu homenageá-la. Alain Delon discursou no ato por Annie. Lembrou a fase em que foram jovens e belos, filmando Rocco e Seus Irmãos.

Filha de uma parteira, Annie Girardot seguiu os passos da mãe, formando-se em enfermagem, mas depois descobriu que queria ser atriz. Seu primeiro triunfo, em 1947, foi com a peça Madame Marguerite. Ela ganhou o César, o Oscar do cinema francês, como melhor atriz (por Docteur François Vailland, de Jean-Louis Bertucelli) e melhor coadjuvante (A Pianista, de Michael Haneke). Foi a melhor atriz em Veneza, em 1965, por Trois Chambres à Manhattan, de Marcel Carné. Com muito mais justiça deveria ter recebido o prêmio em 1960, por Rocco, mas a obra-prima de Luchino Visconti teve de se contentar com o prêmio do júri - o Leão de Ouro, naquele ano, foi para A Passagem do Reno, de André Cayatte, um crime de lesa arte.

Uma recente biografia de Jeanne Moreau, editada na França, conta que Luchino Visconti a queria no papel de Nadia, a prostituta desejada pelos irmãos Rocco e Simone, o que acirra a destruição da família Parondi na cidade grande (Milão). Mas Jeanne já estava comprometida e Visconti, que não abria mão de uma estrela francesa, escolheu Annie. Hoje em dia, é impossível imaginar outra atriz que não ela no papel. Annie, em Rocco e Seus Irmãos, apresenta uma das maiores interpretações do cinema - a maior?

Visconti dirigiu-a no episódio A Bruxa Queimada Viva, de As Bruxas, e no teatro em Depois da Queda, de Arthur Miller. Durante as filmagens de Rocco, Renato Salvatori, que fazia Simone, e ela, se apaixonaram loucamente. Casaram-se e ela não suportou o machismo do marido, que tinha casos com várias mulheres. Annie começou a sair com todos os homens. Romperam, mas até o fim da vida dele, por alcoolismo, iam e voltavam. Talvez fosse por isso que ela sabia, como ninguém, externar a dor do amor? Annie é magnífica em Viver por Viver, formando triângulo com Yves Montand e Candice Bergen no filme de Claude Lelouch.

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