Morre Maria Schneider, do mítico último tango

Em março, ela faria 59 anos. Maria Schneider não chegou lá. A atriz de Último Tango em Paris morreu ontem na capital francesa, após longa enfermidade. Nenhuma agência de notícias esclareceu a natureza da doença que havia anos a consumia.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2011 | 00h00

Embora sua filmografia seja considerável - mais de 50 títulos, entre cinema e TV -, Maria ficou marcada por um papel e foi justamente o que interpretou ao lado de Marlon Brando, na obra-prima de Bernardo Bertolucci. O cinéfilo que hoje dispõe do filme em DVD - ou que, eventualmente, poderia baixá-lo na internet, por mais que se discuta a questão dos direitos - não sabe o que foi a batalha de uma geração inteira para assistir à obra que, por isso mesmo, virou cult.

No começo dos anos 1970, o Brasil vivia sob uma ditadura militar. Havia quem colaborasse com o regime opressor. O Estado resistia e, em suas páginas censuradas, o leitor encontrava trechos de Os Lusíadas e receitas culinárias em vez de notícias. Nos cinemas, as tesouras devoravam metros e metros de celuloide, isso quando os filmes não eram censurados, em nome da moral e dos bons costumes.

Último Tango foi proibido no País, mas chegou a ser exibido, na época, no Uruguai e na Argentina, que também viviam sob regimes militares, mas cujas censuras revelavam um maior apreço pelos cinéfilos. Formavam-se excursões no Sul do Brasil para ir a Montevidéu para assistir ao filme de Bertolucci. Era conhecido como "o filme da manteiga".

Na cena famosa, Brando usava manteiga como lubrificante sexual para sodomizar a personagem de Maria. Na história, eles fazem amantes ocasionais. Encontram-se, bate a atração física e iniciam essa relação peculiar. Frequentam um apartamento em Paris, só para fazer sexo. O problema é que, para o homem, Brando, lá pelas tantas, não basta simplesmente possuir o corpo da mulher. Ele quer possuir também sua mente. Começa como um desejo de falar após o sexo. Maria resiste. Ela aceita tudo, até a sodomização, mas não abre o coração nem a mente.

Existem filmes que marcam feito fogo. Brando, o fenômeno de Hollywood nos anos 1950, estava numa fase terrível de baixa em sua carreira quando dois filmes, no mesmo ano - 1972 -, o catapultaram de novo ao Olimpo do cinema autoral e de mercado. Um foi O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola, em que ele fazia o próprio Don Corleone. O outro, Último Tango. Os críticos até hoje se interrogam que raio de laboratório Bertolucci fez com seu ator para lograr que ele recitasse aquele monólogo tão desesperado junto ao cadáver da mulher.

Maria Schneider, que tinha somente 19 anos ao coprotagonizar Último Tango, fez outros filmes importantes - O Passageiro, Profissão: Repórter, de Michelangelo Antonioni, ao lado de outro astro de Hollywood, Jack Nicholson. Ela participou de muitas séries na TV europeia. Virou a eterna coadjuvante de novos autores. Mas para o público foi sempre a atriz de Último Tango. Brando renasceu. Maria ficou estigmatizada. Ela disse um dia que podia perceber a ironia das pessoas que a olhavam. Tomou ódio pelo papel que a colocou, por sua coragem e entrega, no Panteão dos cinéfilos. Nunca mais falou com Bertolucci, a quem chamava de "cafetão". A cena do estupro não estava no roteiro, foi improvisada no set. Embora não tenha havido penetração, ela se sentiu humilhada. As lágrimas da personagem, na verdade, eram dela.

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