Morre Kaneto Shindo

Cineasta japonês, célebre pelo poema visual A Ilha Nua, estava com 100 anos

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

31 Maio 2012 | 03h17

O cineasta japonês Kaneto Shindo, uma das grandes revelações dos anos 1950 e 60, morreu ontem, em sua casa, localizada em um bairro central de Tóquio, aos 100 anos. Segundo a agência Kyodo, Shindo morreu de causas naturais. Nascido em Hiroshima, em 1912, ele criou uma obra-prima ao relatar sua autobiografia em A Ilha Nua, de 1960, um poema sem palavras.

Apesar da idade avançada, Shindo continuava trabalhando no cinema - seu último filme, Ichimai no Hagaki, foi rodado em 2010 e ganhou o prêmio especial do Festival de Cinema de Tóquio. Ele é também autor e dirigiu Hachiko Monogatari (1987), longa sobre a relação entre um homem e seu cachorro. A história ganhou uma versão em Hollywood estrelada por Richard Gere.

Após começar em um laboratório em Kioto, Shindo se mudou nos anos 1930 para Tóquio, onde começou a trabalhar como assistente do aclamado diretor Kenji Mizoguchi, com quem aprendeu a escrever roteiros. Shindo fundou sua própria produtora em 1950, estreando como diretor no ano seguinte com A História de Uma Esposa Amada. O sucesso internacional veio com o terceiro longa, Os Filhos de Hiroshima, dirigido em 1952. Ali, ele ousou ao traduzir em imagens o horror da explosão da primeira bomba atômica no mundo.

O cineasta não explora a catástrofe, mas prefere se concentrar nos personagens. Assim, a jovem professora Takakao (Nobuko Otowa) é testemunha do que restou de Hiroshima. Mesmo em processo de reconstrução (a bomba explodira sete anos antes), a cidade já é uma entidade fantasma aos olhos da mulher, que se encontra com um cego 'hibakusha' (sobrevivente do holocausto nuclear). Uma cena tornou-se particularmente chocante - a que registra o olhar preocupado da professora para o céu, quando passa um avião.

Com isso, Shindo começou a fazer filmes de indagação social e política. Voltou ao tema do perigo atômico em A Noiva do Japão.

Foi com A Ilha Nua, no entanto, uma obra autobiográfica, que Kaneto Shindo obteve repercussão internacional. Ali, ele simplesmente narra a história de sua família, em uma ilha pobre, exibindo as dificuldades de se atravessar extensões irregulares de terreno carregando nas costas tonéis de água. A poesia está na força da imagem, pois o cineasta mostra essa situação sem usar palavras.

A crítica observou um tom neorrealista no filme, por conta de seu despojamento ao mesmo tempo austero, fotografado em rigoroso preto e branco. Para o júri do Festival de Moscou de 1961, uma obra-prima e um marco do humanismo no cinema. Para muitos críticos, um exercício de estilo, apenas. Brilhante, mas superficial.

Nos anos seguintes, Shindo optou por filmes marcados mais pelo cinismo e pelo fantástico, como a forma que revelou o tratamento do sexo em Onibaba, a Mulher Diabo e O Gato Preto.

No total, Shindo escreveu 231 roteiros e dirigiu 49 filmes. Foi condecorado com a Ordem Imperial da Cultura do Japão em 2002. / COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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