Morre Hector Bianciotti

Amigo de Jorge Luis Borges e dono de uma escrita refinada, autor argentino vivia em Paris

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2012 | 03h11

Quando morreu, em 1986, em Genebra, na Suíça, Jorge Luis Borges estava acompanhado de apenas duas pessoas: Maria Kodama, então sua mulher, e o também escritor e amigo argentino Hector Bianciotti. "Ele foi o Bioy Casares do outono borgiano", escreveu o colunista Sergio Augusto no Estado, em 1996, por conta dos dez anos da morte de Borges. A frase oferece a medida certa da amizade entre os dois autores. E na terça-feira, aos 82 anos, Bianciotti morreu em Paris, na França, por complicações do mal de Alzheimer.

Cultuado escritor, Bianciotti vivia na França desde 1961, quando começou a trabalhar para a editora Gallimard. Também era membro da Academia Francesa desde 1996, o único representante de origem hispana. Como Cortázar, ele revelava aquela dimensão universal que o fazia sentir- se tão à vontade na França a ponto de ali desenvolver a ação de seus romances.

Filho de imigrantes piemonteses, Bianciotti nasceu na cidade de Luque, em Córdoba, em 1930. Foi para a Europa com 25 anos e viveu na Itália e na Espanha antes de se estabelecer na França, onde logo passou a colaborar para a revista Le Nouvel Observateur e para o jornal Le Monde.

Autor de 15 livros, Bianciotti ganhou prêmios como o Médicis de melhor obra estrangeira (La Busca del Jardín, de 1977), o Fémina (Sans la Miséricord du Christ, de 1985, sua primeira obra em francês) e o Prêmio Príncipe Pedro de Mônaco, em 1993, por Ce Que la Nuit Raconte au Jour.

A forma rara com que utilizava a língua francesa era elogiada. Segundo ele, a escolha desse idioma correspondia a "uma tremenda necessidade de expressar" e, "a partir dessa recoberta, recuperar o deslumbramento sentido aos 15 anos e provocado pelo misticismo de poesia, especialmente alguns versos de Paul Valéry extraídos de La Jeune Parque".

"Era um esteta", comentou Carlos Ernesto Manteiga, porta-voz da embaixada da Argentina em Paris, à agência de notícias Efe. Manteiga costumava visitar o escritor em seu lar, um modesto apartamento próximo da République. "Na última vez que o vi, Bianciotti estava rodeado de plantas e flores, apesar de não contar com grandes recursos." Ainda segundo seu relato, o autor, em seus dias derradeiros, gostava de escutar óperas na voz de Maria Callas, de quem mantinha duas fotos sempre à mão - em uma imagem, Bianciotti aparecia saudando a grande cantora.

"Trocar de idioma", dizia, "é modificar a forma de ser, de sentir a diferença". Amante do paradoxo, garantia que poderia estar desesperado em uma língua e apenas triste em outra. Olhos claros, topete loiro, elegância, Hector Bianciotti manteve vários traços de sua aparência juvenil. / COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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