Morre fotógrafa que documentou cotidiano de SP

Nascida na Alemanha, ela fez retratos inovadores da arquitetura e dos moradores da cidade nos anos 1950 e 60

O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2013 | 02h14

Artista plástica e fotógrafa de um registro importante sobre a São Paulo dos anos 1940, 1950 e 1960, Alice Brill morreu, aos 92 anos, na madrugada de sexta para sábado, em Itu (SP), e foi cremada anteontem no cemitério São Pedro, em Vila Alpina, na capital. A causa da morte, porém, não foi informada pela família. "O Brasil perdeu Alice Brill, eu perdi minha mãe", escreveu Silvia Czapski, filha da alemã, em sua página do Facebook.

Depois de perder o pai, Erich Brill, também artista plástico - que chegou a retratar Albert Einstein-, morto em um campo de concentração, Alice, nascida em 1920, deixou a cidade de Colônia com a mãe para fugir do nazismo e chegou ao Brasil, em 1934. Na década seguinte, começou a frequentar o Grupo Santa Helena, associação de pintores do Centro de São Paulo. Lá, ela entrou em contato com Aldo Bonadei (1906-1947), Yolanda Mohalyi (1909-1978) e Hansen Bahia (1915-1978), que influenciaram seus traços na pintura a óleo, cujo tema era a paisagem urbana da capital paulista.

Em 1946, Alice Brill ganhou uma bolsa de estudos nos Estados Unidos e fez cursos de desenho, pintura, história da arte, literatura e filosofia na Universidade do Novo México e na Art Student's League, em Nova York. Em seguida, retornou o Brasil e começou a fotografar para a revista Habitat, para a qual fazia reportagens sobre arquitetura e artes plásticas.

A produção fotográfica da alemã foi intensa, com cerca de 14 mil imagens, cujos negativos foram doados ao Instituto Moreira Salles. Na sequência, foi convidada por Pietro Maria Bardi (1900-1999), então diretor do Museu de Arte de São Paulo, a fazer um trabalho sobre o dia a dia da cidade.

Alguns dos destaques são a foto batizada de Movimento na Rua Direita e outro flagrante dos frequentadores de uma feita livre na Rua Oscar Freire, décadas antes de a via se tornar ponto de referência de lojas de grife. Ao mesmo tempo em que se dedicava a clicar o cotidiano dos paulistanos, Alice fazia pinturas em que reproduzia figuras humanas em casarões e apartamentos, em que tentava traduzir a solidão dos habitantes de uma metrópole.

Não só prédios e paisagens de concreto passaram por suas lentes. A europeia também documentou índios quando esteve na expedição Roncador-Xingu e as tribos de Carajás, no Mato Grosso. Em seus registros, estão ainda imagens do hospital Psiquiátrico de Juqueri, em Franco da Rocha.

Nos anos 1970, a artista retomou a vida acadêmica e concluiu a graduação em filosofia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Nas décadas seguintes, dedicou-se ao mestrado e doutorado na Universidade de São Paulo. No período de estudos, a alemã publicou o livro Mario Zanini e Seu Tempo, sobre o pintor com quem conviveu no Grupo Santa Helena. Ela também assinou a publicação sobre arte Samson Flexor - Do Figurativismo ao Abstracionismo.

Em 2005, a artista ganhou a retrospectiva O Mundo de Alice Brill, que rodou diferentes capitais do País com seu acervo fotográfico. Quando completou 90 anos de vida e 70 dedicados à arte, ela foi homenageada com uma exposição em que o público pode conferir fotografias e pinturas. Seus últimos trabalhos exibidos foram as telas com impressão em papel de arroz e batik, técnica de tingimento de tecidos comum na Indonésia, em que Alice misturava elementos de todas as manifestações de sua obra.

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