Morre em São Paulo o empresário e bibliófilo José Mindlin

Um dos maiores colecionadores de obras raras do Brasil, empresário doou acervo particular para a USP

Fabiane Leite, de O Estado de S. Paulo, com estadao.com.br,

28 Fevereiro 2010 | 11h59

José Mindlin (1914-2010), entre os livros de sua biblioteca. Foto: Paulo Pinto/AE    

 

 

SÃO PAULO - O empresário e bibliófilo José Mindlin morreu na manhã deste domingo, 28. Tinha 95 anos. Um dos maiores colecionadores de livros do País, Mindlin estava internado há aproximadamente um mês no Hospital Albert Einstein para tratamento de uma pneumonia. O velório foi realizado no próprio hospital, das 13 horas às 15 horas, quando o corpo seguiu para o enterro no Cemitério Israelita da Vila Mariana (R. Deputado Lacerda Franco, 2012), conforme informou a secretária do empresário, Monica Nills.

 

Nascido em São Paulo, em 8 de setembro de 1914, Mindlin estudou Direito na USP e fez cursos de extensão universitária na Universidade de Columbia, em Nova York. Advogou por alguns anos, deixando essa atividade para fundar a empresa Metal Leve, que se destacou no setor de peças para automóveis e hoje é controlada pela multinacional alemã Mahle. Ele foi diretor da Metal Leve durante 46 anos, deixando a empresa em 1996.

 

lista Um mecenas que não fazia nada sem alegria

video Memória: Mindlin lembra crise de 1929

 

Aos 32 anos, financiado por um empresário, conseguiu um sócio e fundou a livraria Parthenon, em São Paulo, especializada em livros raros. E assim iniciou seu périplo em busca de obras raras para sua biblioteca particular.

 

A sua paixão pelos livros fez com que chegasse a ter 45 mil volumes, colecionados desde os anos 30. Esse acervo incluiu raridades, como a primeira edição de Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa. Em junho de 2009, ele doou sua biblioteca, a maior coleção particular de livros do Brasil, para a USP, transformando-a na a biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. A Brasiliana USP, é um projeto acadêmico da Universidade de São Paulo que reúne a maior coleção de livros e documentos sobre o Brasil, um moderno edifício de 20 mil metros quadrados na Cidade Universitária.

 

Mindlin ocupou a cadeira 29 da Academia Brasileira de Letras. Foi eleito em 20 de junho de 2006, sucedendo o escritor Josué Montello. José Mindlin deixa quatro filhos, 12 netos e 12 bisnetos. Sua mulher Guita morreu em 2006.

 

Velório

 

Figuras importantes no cenário nacional passaram pelo velório de José Mindlin no Hospital Albert Einstein, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o governador José Serra, o prefeito Gilberto Kassab, a ex-prefeita Marta Suplicy, o reitor da USP João Grandino Rodas, o ex-ministro das relações exteriores Celso Lafer, o economista José Pastore, o maestro Júlio Medaglia, o rabino Henry Sobel e o senador Eduardo Suplicy.

 

Fernando Henrique Cardoso: "Mindlin foi um resistente contra a ditadura e prestou apoio quando Herzog foi morto. Era uma pessoa que se preocupava com o país".

 

José Serra: "Uma grande figura como pessoa, intelectual e também uma grande figura política, quando soube defender a liberdade de imprensa. Sempre foi um democrata e uma grande figura de São Paulo".

 

Henry Sobel: "Mindlin era um homem íntegro que enxergava a ética na política". Destacou que teve apoio de Mindlin em um dos momentos mais dramáticos do País, como quando decidiu não enterrar como suicida o jornalista Vladimir Herzog".

 

Marta Suplicy: "Mindlin será lembrado por doar sua coleção de livros à USP e ajudar na digitalização dos mesmos. Isso é importante porque no Brasil não temos a prática de doar".

 

Celso Lafer: "Mindlin teve longa existência de muitos amigos e muita respeitabilidade. Deixa legados em muitos campos e o maior deles foi a doação da biblioteca".

 

João Grandino Rodas: "Apesar de ser também empresário, Mindlin sempre viveu de uma maneira simples e que ele e sua mulher sempre se dedicaram a ajuntar livros e cuidar de sua conservação". "Apesar de ser também empresário, Mindlin sempre viveu de uma maneira simples e que ele e sua mulher sempre se dedicaram a ajuntar livros e cuidar de sua conservação". Lembrou ainda que "durante 15 anos Mindlin lutou para que a USP recebesse seus livros. No Brasil, as instituições têm ojeriza a doações provadas e ele foi um pioneiro nisso".

 

Eduardo Suplicy: "Ele foi um homem que ajudou o Brasil a ser um país melhor".

 

 

Texto atualizado às 23 horas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.