Morre em Belém Benedito Nunes

Paraense era grande especialista nas obras de Clarice Lispector e Heidegger

Carlos Mendes, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2011 | 00h00

O filósofo e escritor Benedito Nunes, um dos maiores intelectuais brasileiros, morreu ontem, aos 81 anos, no Hospital da Beneficência Portuguesa, em Belém, onde estava internado havia quinze dias com deficiência pulmonar, mau funcionamento dos rins e sangramento na úlcera. De acordo com boletim médico, ele faleceu após uma parada cardiorrespiratória. A internação não foi divulgada por escolha da família, que preferiu tratar o problema de saúde de Nunes com discrição. O corpo deve ser cremado na manhã de hoje, segundo pedido do próprio Nunes.

O governador do Pará, Simão Jatene, divulgou nota afirmando que Nunes deixa "inestimável contribuição à cultura do País". Segundo ele, a grandeza de Nunes como paraense se revelou quando recebeu convites irrecusáveis para trabalhar em outros centros, no Brasil e no exterior, "mas escolheu o Pará como destino e lugar para viver e construir a sua vasta e admirável trajetória intelectual".

Benedito José Viana da Costa Nunes, nasceu em Belém do Pará no dia 21 de novembro de 1929. Eterno aprendiz e um autodidata, como se considerava, ele definia seu trabalho como "um tipo mestiço das duas espécies, a filosofia e a literatura". Especializou-se em analisar obras de grandes escritores como Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa, dentre outros. Fez mestrado na Sorbonne, em Paris e foi um dos fundadores da Faculdade de Filosofia do Pará e do Norte Teatro-Escola.

Entre os trabalhos teatrais nos quais esteve envolvido destaca-se a encenação de Morte e Vida Severina, no 1º Festival Nacional de Teatro Amador (1958), no Recife, o que lhe valeu o prêmio de melhor adaptação teatral. Grande especialista na obra de Clarice Lispector, é autor de livros como O Mundo de Clarice Lispector (1966); Poesia de Mário Faustino (1966); Farias Brito: Trovas Escolhidas (1967); O Dorso do Tigre (1969); Leitura de Clarice Lispector (1973); Oswald Canibal (1978); O Livro do Seminário (1983); Passagem para o Poético: Filosofia e Poesia em Heidegger (1986); O Tempo na Narrativa (1988); A Paixão Segundo GH/ Clarice Lispector (1988); O Drama da Linguagem: uma Leitura de Clarice Lispector (1989); O Crivo de Papel (1999) e Hermenêutica e Poesia - O Pensamento Poético (1999).

Em 2010, Nunes foi agraciado com o Prêmio Machado de Assis, principal prêmio literário brasileiro, oferecido pela ABL desde 1941. Como filósofo, Bené, como era conhecido entre os amigos, deixou uma vasta obra de ensaios sobre grandes pensadores alemães, entre eles Martin Heidegger

Sua obra de 1967, Filosofia Contemporânea, já foi relançada três vezes pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e é uma referência nacional, principalmente para estudantes. O livro aborda todas as correntes filosóficas a partir do século 19. Começa com o legado de Kant e Hegel, no século 18 e começo do século 19. Depois, segue para Kierkegaard e Nietzsche, entrando pelo século 20. Em seguida, "as filosofias da vida e a fenomenologia", encerrando com Heidegger a Wittgenstein, os dois filósofos principais que foram contemplados no livro.

Nunes tinha especial predileção pelo pensamento da dupla. E costumava dizer que essa afinidade se devia aos problemas que eles abordavam, "além da ressonância afetiva e intelectual". Na terceira reedição de Filosofia Contemporânea, ele fez questão de atualizar a obra, tratando do pensamento do filósofo francês Michel Foucault, além de revisitar em preciosa análise a obra de Paul Ricoeur, a quem dedicou um dos capítulos mais longos.

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