Morre dramaturgo polonês Slawomir Mrozek, adepto do teatro do absurdo

Ao condenar a intolerância em seus textos, desafiou o totalitarismo e criticou a invasão de Praga em 1968, vivendo no exílio

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

29 de agosto de 2013 | 19h19

Lembrado por sua revolucionária Tango, peça considerada uma releitura contemporânea nada convencional de Hamlet – em que o príncipe é substituído por um adolescente conservador que desaprova a promiscuidade dos pais–, o dramaturgo polonês Slawomir Mrozek morreu no último dia 15, aos 83 anos, em Nice, na França, após meio século vivendo no exílio. Vai fazer falta. Uma das vozes mais corajosas e lúcidas do teatro, ele desafiou o totalitarismo soviético em 1968, ao condenar a participação polonesa na invasão da Checoslováquia, tendo seu passaporte confiscado e suas peças proibidas, na época, em seu país natal.

Tango foi montada no Brasil, que também viu encenações de Strip-Tease, uma peça surrealista sobre dois prisioneiros cujas roupas são tiradas por uma mão pantagruélica fora de cena. Por causa do conteúdo alegórico de suas peças, Mrozek foi alinhado a Ionesco, passando a figurar como um representante do teatro do absurdo, embora seus textos – que, de fato, recorrem ao humor negro e situações bizarras – tenham relação direta com situações reais que Mrozek testemunhou e preferiu transformar em metáforas do mundo intolerante em que viveu.

A aproximação com a estética do teatro do absurdo se deu em função de uma estratégia para driblar a censura polonesa, que o fez trocar a Polônia pela França, em 1964. Mrozek conseguiu a cidadania francesa e viveu em Paris até 1989, quando decidiu fixar residência no México. Mesmo longe de seu país natal, Mrozek teve peças encenadas por diretores poloneses famosos, como o cineasta Andrzej Wajda, que assinou uma montagem de Os Emigrantes em 1975.

Classificado pelo crítico e ensaísta Martin Esslin como uma figura chave na tradição do surrealismo político, Mrozek abordou em Tango um problema crucial dos anos 1960: a ascensão das massas e da sociedade de consumo, criticando violentamente a vulgarização imposta pelo desejo insano de pertencer a grupos e ceder à uniformização da linguagem e dos costumes da matula. Artur, que se rebela contra a vulgaridade dos pais, acaba morto e seu corpo pisoteado pelo próprio pai e o tio no tango final que dá nome à peça.

A influência de Mrozek sobre outros dramaturgos estrangeiros foi imensa, bastando lembrar o inglês Tom Stoppard, que adaptou os diálogos de Tango quando a peça foi montada na Royal Shakespeare Company. Mrozek não se tornou exatamente popular na Inglaterra, mas a ressonância de sua dramaturgia em Stoppard é inegável (especialmente em Rosencrantz e Guildestern estão Mortos). Outro de seus textos mais conhecidos é Elefante, sobre um zoológico empenhado em ter o animal, que acaba aceitando um sucedâneo de plástico inflável, cuja aparência desagrada às crianças. Sentindo-se enganadas, elas abandonam os estudos e viram hooligans.

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