Morre Carmem Portinho, aos 98 anos

Carmem Portinho, a primeira urbanista a se formar no País, morreu na quarta-feira, aos 98 anos. Pioneira da arquitetura modernista no País, ela construiu e administrou o Museu de Arte Moderna do Rio, sendo responsável pela fase áurea da instituição. Ela também foi a criadora da pioneira Escola Superior de Desenho Industrial (Esdi) e desempenhou um importante papel na defesa dos direitos da mulher nas primeiras décadas do século 20, o que lhe garantiu o título de "a grande dama da modernidade", como a definiu o escritor Sérgio Augusto em um perfil publicado no ano passado no Estado, quando a arquiteta foi indicada para o Prêmio Multicultural Estadão."Doutora Carmem", como era chamada por seus colegas, trabalhou até o fim da vida, apesar da avançada idade, atuando como assessora especial do Centro de Tecnologia e Ciência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e costumava dizer que o trabalho era para ela uma necessidade biológica tão essencial quanto comer e dormir.Carmem nasceu em Corumbá, Mato Grosso do Sul, mas mudou-se com a família para a capital do País - então o Rio de Janeiro - aos 8 anos de idade. Desde então dizia que queria fazer algo que envolvesse arte ou matemática. Conseguiu unir as duas.A liberdade de escolha era então algo raro para as mulheres. "Meus pais eram evoluídos, especialmente meu pai, que nunca se opôs a que suas filhas se encaminhassem para profissões habitualmente reservadas aos homens. Tenho quatro irmãs formadas em direito", contou. Em 1920 entrou para a Escola Politécnica, complementando o curso com dois anos de estudo de desenho e escultura na Escola de Belas Artes - Carmem também foi uma curadora respeitada internacionalmente -, onde foi colega de Portinari.Nesse período se envolveu ativamente na luta pela emancipação femininina, com objetivo principal de garantir às mulheres o direito de voto. "As mulheres brasileiras se equipararam aos homens uma década antes das italianas ou francesas", lembrava com orgulho.O urbanismo a fascinou desde os primeiros anos de formada e inscreveu-se no primeiro curso criado no Rio, em 1935. Tratava-se de um programa de pós-graduação no Instituto de Artes da Universidade do Distrito Federal, elaborado por Lúcio Costa. "Ainda me lembro dos temas da primeira aula de Mário de Andrade: habitação e costumes indígenas. Foi ele quem assinou meu diploma de urbanista."Seu tema de tese foi a futura capital federal e só não participou da construção porque no momento só tinha olhos para seu grande projeto, o MAM, que construiu em meados dos anos 50, ao lado do companheiro inseparável, Eduardo Reidy. Ela dirigiu a instituição até a década de 60, quando um golpe a afastou do museu. Mas ela deu a volta por cima, montando em 1967 a Esdi, onde permaneceu por 22 anos.

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