Morre bluesman David 'Honeyboy' Edwards

Era um dos remanescentes do blues do Delta do Mississippi, e tinha sido parceiro de Robert Johnson

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2011 | 00h00

Morreu na segunda-feira, aos 96 anos, o cantor David "Honeyboy" Edwards, um dos mais proeminentes artistas do que se convencionou chamar de Blues do Delta do Mississippi - um escopo geográfico, mas também definido em estilo, instrumentos (gaita, violão, canto forte) e temática, ligada à música de trabalho dos afro-americanos da região.

"O blues não é feito para ser tocado rápido, mas para ser tocado lentamente", dizia o velho Honeyboy, que ganhou um Grammy em 2008 pelo disco Last of the Great Mississippi Delta Bluesmen: Live in Dallas, lançado pelo The Blue Show Project. À WBEZ Chicago Public Radio, ele contou como foi ouvir pela primeira vez sua voz em disco, após anos cantando sem gravar. "Eu tocava gaita, e minha voz era realmente forte", disse.

Alguns discos parecem fadados a transformar-se em documentos históricos. Foi o caso de Last of the Great Mississippi Delta Bluesmen: Live In Dallas, lançado em 2007. O álbum reuniu em um show ao vivo as últimas lendas do blues do Delta do Mississippi em atividade: Henry James Townsend, Joe Willie "Pinetop" Perkins, Robert Lockwood, Jr. and David Honeyboy Edwards. O show fora em Dallas, em outubro de 2004.

O time todo já não está mais uivando seus blues por aí. O cantor, guitarrista e pianista The Mule (A Mula), Henry Townsend, morreu em setembro de 2006, aos 97 anos. Robert Lockwood morreu em novembro de 2006, aos 91 anos. Pinetop Perkins morreu em março deste ano, aos 97 anos. E agora foi a vez de Honeyboy, aos 96 anos.

Durante 80 anos, Honeyboy tocou alguns dos mais famosos músicos do blues, como Charley Patton, Muddy Waters e Howlin" Wolf. Por causa de seu trabalho e amizade com Robert Johnson, considerado o pai da sintaxe do blues, ele era muito procurado. Ambos viajaram e tocaram juntos em ruas e piqueniques nos anos 1930.

"Nós podíamos andar pelo país com nossos violões sobre os ombros, parávamos na casa das pessoas, tocávamos um pouco e seguíamos adiante", ele contou uma vez ao historiador Robert Palmer. "Pegávamos carona, íamos de caminhão em caminhão ou, se calhasse de a gente conseguir carona com um deles, subíamos no vagão de um trem, porque a estrada de ferro atravessa va o país inteiro na época. Rapaz, nós tocamos para muita gente."

Conta a lenda que, em 1938. Honeyboy, Sonny Boy Williamson e Robert Johnson estavam num estabelecimento noturno, e Johnson se engraçou justamente com a mulher do dono do bar. O sujeito teria lhe enviado uma garrafa de uísque com algum tipo de veneno, o que levaria o King of Delta Blues à morte em 16 de agosto de 1938.

Nascido em Shaw, Mississippi, em 28 de junho de 1915, numa fazenda de algodão, ele ganhou o apelido dos pais. A mãe tocava violão, o pai tocava violino. Em 1929, começou a tocar com o bluesman Tommy Johnson. "Eles catavam algodão o dia todo, e de noite eles tocavam os violões", contou o músico em sua autobiografia, The World Don"t Owe Me Nothing (Chicago Review Press, 1997). Em 2006, ele esteve pela última vez no Brasil, apresentando-se no Festival de Inverno de Paranapiacaba.

LENDAS VIVAS

Aos 86 anos, o pianista Henry Gray é um dos ativos sobreviventes do blues. Tocou com Muddy

Waters, Otis Rush e Sonny Boy Williamson e é um dos guardiões da chama do blues boogie-woogie. Aos 81 anos, Bobby Bland, conhecido como O Leão do Blues, é um forte do Tennessee, Os outros gigantes do gênero são muito conhecidos: B.B. King (que já anunciou a aposentadoria diversas vezes) segue tocando com 86 anos, e Buddy Guy, aos 75, o homem que influenciou de Jimi Hendrix a Keith Richards, segura as pontas do blues elétrico.

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