Morre, aos 92 anos, o papa da arte anticlerical

Maior nome entre os contemporâneos da Argentina irritou o Papa católico

Antonio Gonçalves Filho , O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2013 | 02h21

Não é exagero afirmar que o artista argentino Leon Ferrari, que morreu ontem, em Buenos Aires, aos 92 anos, após prolongada luta contra o câncer, foi uma espécie Lucas Cranach, o Velho (1472-1553), que retratou o Papa como o Anticristo. Ou um Albrecht Dürer (1471-1528) contemporâneo. A exemplo do anticlerical renascentista alemão, cujo espírito humanista o levou a explorar todas as áreas do conhecimento e abraçar o luteranismo, Ferrari ficou conhecido pelos escândalos que sua obra provocou, sendo o mais lembrado o bate-boca com o atual Papa Francisco, quando ainda era Jorge Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires, em 2004. Na época, a Igreja argentina condenou uma exposição retrospectiva de Ferrari no Centro Cultural Recoleta, considerada blasfema pelo atual Papa, que definiu a mostra como "um desrespeito aos valores religiosos e morais dos argentinos".

Na exposição estavam, entre outras obras, uma que ilustra esta página, a do Cristo crucificado sobre um bombardeiro norte-americano (A Civilização Ocidental e Cristã, 1965), quando os EUA enviaram tropas para sustentar o governo do Vietnã do Sul. Além dele, Ferrari expôs Virgens em garrafas de vidro e uma collage da cantora Madonna nua diante do papa João Paulo II, além de embalagens de preservativos com a imagem do Sumo Pontífice. Ferrari não deixou o futuro papa Francisco sem resposta, justificando o ataque anticlerical pelos "delitos cometidos pela Igreja na Argentina e em outras partes". Em tempo: Ferrari teve um de seus três filhos, Ariel, sequestrado pela ditadura militar.

Partindo da Argentina com a família, ele desembarcou em São Paulo em 1976 e aqui viveu por 14 anos, até 1991, deixando, ao partir, duas netas, Florencia, que é diretora editorial da Cosac Naify, e a arquiteta Anna. Era um homem reservado, quase tímido, silencioso, que em nada lembrava o estrondoso barulho que sua arte provoca em toda parte - e ele expôs nos principais museus e mostras internacionais, da Bienal de Veneza, onde ganhou o Leão de Ouro em 2007, ao Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), onde dividiu espaço com trabalhos de Mira Schendel, na exposição Tangled Alphabets (2009).

Embora seja identificado de imediato como um artista político, transgressor, autor de collages denunciadoras dos crimes da ditadura argentina, em que recorreu com frequência a recortes de jornais, Ferrari foi também um excelente escultor, gravador e desenhista, realizando em São Paulo algumas de suas melhores séries, mostradas no Brasil pela primeira vez em 1978, na Pinacoteca do Estado. Uma delas é a de esculturas sonoras feitas com arame, derivadas de obras dos anos 1960 (como Torre de Babel, 1964) e manipuladas pela primeira vez em 1980 numa performance no mesmo museu. No ocasião, ele trabalhou ao lado do compositor experimental Conrado Silva. Sua última exposição no Brasil foi em 2005, uma retrospectiva que reuniu 120 obras na Pinacoteca.

Foi na volta à terra natal que Ferrari retomou, em 1983, o tema político-religioso com collages e ilustrações heterodoxas da Bíblia. Nelas, ele insere figuras dos Evangelhos em orgias seculares representadas nas gravuras eróticas orientais. Ferrari ganhou uma bolsa da Fundação Guggenheim para seu estudo sobre sexo e violência na arte cristã, que ele apresentou num seminário no México.

Curiosamente, foi na exploração dos sentidos do plano, quando começou a fazer gravura, em 1962, em Milão, que Ferrari se mostrou mais bíblico e menos blasfemo. Suas escrituras deformadas podem conter algo de herético, mas são de uma delicadeza em tudo inversa à arte política que praticou.

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