Morre aos 90 o mestre da ficção científica Arthur C. Clarke

Escritor de '2001: Uma Odisséia no Espaço' sofria de problemas respiratórios e faleceu nesta terça-feira

Agências internacionais,

18 de março de 2008 | 19h12

O renomado visionário e escritor de ficção científica Arthur C. Clarke, que publicou mais de cem livros sobre o espaço, a ciência e o futuro, morreu aos 90 anos, por volta das 17 horas desta terça-feira, 18, em sua casa no Sri Lanka. Ele é autor do clássico 2001: Uma Odisséia no Espaço, cuja adaptação para o cinema por Stanley Kubrick é considerada ícone e figura entre os melhores filmes da história.   VEJA TAMBÉM  Fotos - A carreira do escritor  Renato Cruz - Arthur Clarke e os satélites   Especial - O legado literário de Arthur Clarke  Entrevista - 'Escrever é hobby; se dá dinheiro, muito bem'    No longa de 1968, o célebre supercomputador HAL 9000 e a cena dos macacos lutando com ossos se tornaram referências na cultura científica e base para as análises da corrida espacial vivida no período da Guerra Fria, após a Segunda Guerra Mundial (assista ao trailer aqui).   Clarke sofria de problemas respiratórios e lutava contra a síndrome de pós-pólio desde 1960. Às vezes, precisava do auxílio de uma cadeira de rodas. Movido por sua paixão por mergulho, o escritor se mudou para o Sri Lanka em 1956. Clarke dizia que quando mergulhava, ele se sentia leve, como no espaço. "Sou perfeitamente operacional quando estou submerso", ele declarou.   A morte foi anunciada por seu assessor, Rohan De Silva. "Ele teve um ataque cardiorrespiratório", disse o secretário pessoal na quarta-feira (horário local). Para celebrar sua "90ª órbita do sol", em dezembro, o autor e teorista fez três desejos: que os ETs me chamem, que o homem abandone seu hábito petroleiro e que o Sri Lanka encontre a paz.   Em 1945, Clarke já falava sobre comunicação via satélite, décadas antes de ela se tornar realidade. Órbitas geosincrônicas, que mantêm os satélites numa posição fixa em relação à Terra, são chamadas órbitas Clarke. O escritor participou do programa do jornalista Walter Cronkite como comentarista sobre as imagens da chegada da nave U.S Apollo à Lua, em meados dos anos 60.   No aniversário de 90 anos, ainda lúcido, Clarke gravou um especial para a TV Asia Pacific com reflexões sobre sua obra. Ele analisa as previsões que fizera décadas antes e faz colocações sobre o futuro da ciência. Assista ao vídeo acima ou neste link. Clarke foi o primeiro, por exemplo, a propor uma estrutura parecida com os atuais satélites, que enviam imagens e dados por redes sem fio globais.   Internautas colaboradores da enciclopédia on-line Wikipedia já atualizaram o verbete Arthur Clarke com as informações da morte. Blogs também já repercutem a notícia, inclusive um criado por Thilina Heenatigala no Sri Lanka pela ocasião do 90º aniversário do escritor, em dezembro do ano passado.   Excêntrico   Arthur Clarke tem um pedaço da Lua com o seu nome e era o estrangeiro mais famoso do Sri Lanka. Sua prolongada permanência era motivo de orgulho para o país, que fez dele seu cidadão honorário. Milionário, ele costumava usar sarongue e sandálias e, livre da obrigação de pagar impostos, vivia em Colombo desde 1956.   Seu escritório era repleto de bugigangas e presentes de admiradores que compartilhavam de seu amor pelo espaço. Havia um boneco do astronauta Buzz Aldrin, uma foto do asteróide que recebeu o nome do cientista e escritor, modelos de equipamentos espaciais, retratos do elenco de Jornada nas Estrelas e um livro de um cientista da Nasa que agradece por ter inspirado suas "primeiras férias em Marte".   Na parede, havia também um retrato de Dan Richter, o ator que interpretou o macaco na aurora dos tempos em 2001, aquele que pega um osso de animal e descobre que pode usá-lo como uma arma. "Hoje, ele é um executivo em Los Angeles", dizia Clarke com um certo desdém. "Tenho certeza que esse seu talento é bastante útil em sua nova atividade."   Nos últimos anos de vida, sua sede por publicidade se abrandou um pouco por causa da idade e de seus problemas de saúde. Para aqueles que pediam conselhos, ele costumava enviar sempre o mesmo recado: "Aos entusiastas que me enviam teorias, projetos de invenções e planos para a salvação do mundo, desculpem-me, mas não tenho tempo nem qualificação para discutir suas idéias."   Apesar do futurismo, não se imaginava vivo para contemplar o avanço da tecnologia. "Nunca imaginei que estaria vivo no ano 2000", costumava dizer com gargalhadas.   Suas previsões para o século 21? "Acho bastante provável que um asteróide gigantesco, como aquele que provocou a extinção dos dinossauros, atinja a Terra." A realização de que mais se orgulha? Um trabalho científico que produziu em 1945, como oficial de radar da Royal Air Force, no Reino Unido, explicando como um dia satélites em órbita poderiam transmitir informações para todo o planeta. "Mas prefiro ser lembrado pelos meus contos e romances de ficção científica."   Obra   O próprio Clarke é um caso interessante na ficção científica. O filme 2001 e o romance em que ele novelizou o roteiro são os argumentos mais usados pelos seus fãs para lhe dar um lugar de destaque entre os grandes escritores do gênero.   Entretanto, o crítico e autor de ficção-científica Thomas M. Disch comparou seu caso ao de Mary Shelley, a autora de Frankenstein: "Se Mary Shelley não desfrutasse da boa sorte de ter se casado com um poeta destinado à glória e da boa sorte adicional do seu romance ter se tornado um filme clássico, sua criação não teria atingido o status de um mito moderno, uma constelação no céu pós-moderno". Arthur C. Clarke é do tempo em que as revistas pulp pagavam um centavo por palavra. O autor tinha de escrever bastante - e rápido - para pagar as contas e o uísque no fim do mês. Logo, muito do que saía na época era excessivo, descuidado e sem valor. Devoto fanático do conceito de que o espaço era a nova fronteira, Clarke muitas vezes enchia suas histórias com relatos de viagem espacial que pareciam chatos documentários sem vida. Basta lembrar que ele desabrochou para as listas de best-sellers em 1951, com um livro assim, de não-ficção, chamado A Exploração do Espaço, situando a Lua e os planetas como o Novo Oeste. Era ficção científica com muita ciência e pouca ficção.  Felizmente a equação foi contrária em textos que se tornaram clássicos da literatura de antecipação como A Estrela (1955), O Vento Solar (1964) e Encontro com Medusa (1971). Histórias que Clarke escreveu depois da era dos pulps. Com seu subtexto de progresso científico acoplado com as artes da guerra, eram o eco ficcional da sua célebre previsão da idade das comunicações via satélites artificiais, feita anos antes de os primeiros foguetes serem lançados ao espaço. Homem do seu tempo, Clarke tinha uma visão delimitada pela história da Inglaterra, da época em que seu país teve de sobreviver a duas guerras mundiais, à perda da Índia e de outras colônias.  Talvez isso explique uma forma pessimista e cortante de ver o futuro, como no seu romance Childhood’s End, sem tradução para o português. Nele, os aliens chegam, dominam os terrestres e se revelam como anjos (demônios?) num final apocalíptico.  Colocar a humanidade diante de inimigos incrivelmente poderosos, diante de deuses e forças da natureza era um hábito de Clarke.  Já o criticaram porque seus heróis humanos muitas vezes são simples nomes, sem relacionamentos, passado, ambições. Também seus aliens são remotos.  O que ele trata com detalhes e cuidados são as máquinas e sem dúvida, talvez sua criação mais destacada seja o computador pirado HAL 9000, de 2001: Uma Odisséia no Espaço.     (Com reportagem de Geraldo Galvão Ferraz, do Jornal da Tarde)   Matéria atualizada às 21h30 para acréscimo de informações.

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