Morre, aos 84 anos, o diretor Ken Russell

Cineasta, diretor de Mulheres Apaixonadas e Tommy, foi um enfant terrible do cinema inglês

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2011 | 03h08

Diretor de filmes polêmicos como Mulheres Apaixonadas e Os Demônios, o britânico Ken Russell morreu domingo aos 84 anos. Segundo seu filho, Alex, Russell morreu dormindo, no hospital onde estava internado. A causa da morte não foi informada. O cineasta Michael Winner disse que Russell sofreu de uma "doença terrível" durante algum tempo e que era uma pessoa bem-humorada e bem-intencionada. Fará falta ao cinema inglês, concluiu.

Russell foi um típico exemplar da cultura dos anos 60 e 70, com sua rebeldia explícita e às vezes questionável. Nasceu em Southampton, Hampshire em 3/7/1927 e começou a ser notado nos sixties, quando ganhou fama de "enfant terrible" do cinema inglês. Naquela época de contestação, não era fácil se distinguir como rebelde. Mesmo assim Russell se destacava.

Teve, no entanto, um começo bastante convencional em seu trabalho na BBC. Dirigindo curtas e filmes sobre compositores como Elgar e Debussy, não se poderia adivinhar a carreira do futuro demolidor.

Deu, no entanto, um salto qualitativo ao dirigir uma insólita versão de Mulheres Apaixonadas, o clássico de D.H. Lawrence (livro que já havia tido sérios problemas com a censura em outras épocas). Russell o radicaliza e promove uma estranha luta de boxe com os protagonistas sem roupas. Interpretado por Oliver Reed, o filme quebrou o tabu do nu frontal masculino. Rendeu um Oscar de atriz para Glenda Jackson e tornou-se um cult, pelo menos durante algum tempo.

Chocar era com ele, assim como tornar explícitas coisas que outros, apesar da liberalidade do tempo, ainda preferiam jogar para debaixo do tapete. Por exemplo, hoje ninguém nem notaria se um diretor, numa cinebiografia, apontasse a homossexualidade de um compositor. Mas, naquela ocasião, Russell chocou ao deixar clara a opção sexual do compositor russo Tchaikovski em Delírio de Amor. Prova de que os anos 60 e 70 (o filme é de 1970) eram uma curiosa mistura de caretice e avanço nos costumes, mesmo em centros desenvolvidos.

E ainda mais no Brasil, que suportava a truculência e o pudor moral da ditadura militar e assim proibiu em todo território nacional a exibição de Os Demônios (1971). O filme, também estrelado por Reed, que contracena com Vanessa Redgrave, mostra um caso de repressão sexual na França do século 16. Revisto hoje, provavelmente não teria nada de mais. Mas compreende-se o que insinuava (na verdade deixava bem claro) na época: que a sexualidade, quando recalcada, tende a se transformar numa perigosa perversão. Reflete, no fundo, ideias libertárias correntes naqueles anos, como as do psicanalista Wilhelm Reich, redescoberto nos anos 60.

No entanto, é com Tommy, de 1975, uma ópera-rock composta pelo grupo The Who, que Russell chega talvez ao ápice como diretor. O filme traz em seu elenco os próprios músicos e é marcado pelo visual extravagante com toque francamente surrealista. O tema, recorrente na narrativa ocidental (vide Coronel Chabert, de Balzac, por exemplo) é o do militar desaparecido na guerra, dado como morto até que um dia reaparece. No entretempo, a esposa, que cuidara do seu filho Tommy, conhecera outra pessoa, etc.

A ópera-rock fora encenada pelo The Who em 1969 e Russell retomou a história com algumas modificações. Por exemplo, trazendo a trama da 1.ª para a 2.ª Guerra. Deu-lhe também uma leitura psicodélica, própria da época e do seu imaginário criativo. Foi um grande sucesso mundial e tornou-se um cult - este não propriamente datado. Sempre que é reexibido, Tommy consegue despertar o interesse e a emoção de um bom número de espectadores, atravessando gerações de gostos diferentes.

Há quem prefira outro filme de Russell, Crimes de Paixão (1984), com Kathleen Turner e Anthony Perkins. Kathleen faz Joana, uma estilista divorciada que resolve contornar seus problemas financeiros como garota de programas a preços módicos. No métier, conhece um fanático que decide empreender seus esforços para tirá-la da chamada vida fácil. O filme chegou a ter problemas com a censura americana. É um belo e ousado trabalho, levado com a habitual mão iconoclasta de Russell, que, nos pontos altos de sua carreira, manteve-se alheio às concessões exigidas pelo cinema comercial.

Nem sempre foi assim e o prolífico Russell deixou também obras nada memoráveis. Um dos seus últimos trabalhos foi The of Louse of Usher, uma paródia do texto de Edgard Allan Poe, já levado para o cinema por outros diretores, como Roger Corman.

Mas o fato é que Russell já havia tido seu melhor momento numa época em que a contestação ainda era possível, como dizia Buñuel.

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