Bárbara Lopes/Agência O Globo
Bárbara Lopes/Agência O Globo

Morre, aos 79 anos, o escritor e jornalista Luiz Carlos Maciel

Maciel roteirizou filme de Eduardo Coutinho, dirigiu peças de teatro e atuou no 'Pasquim'

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

09 Dezembro 2017 | 17h05

RIO - “Jornalista, dramaturgo, roteirista de cinema, filósofo, poeta e escritor. Apesar de sua vasta atuação no cenário cultural brasileiro, Luiz Carlos Maciel é comumente lembrado por sua participação n'O Pasquim, com a coluna Underground, quando então escrevia artigos sobre os movimentos alternativos que eclodiam no mundo, assim como as manifestações anteriores que lhes serviram de base, como o romantismo, o surrealismo, o existencialismo sartreano, a literatura da Beat Generation, o marxismo, entre muitos horizontes (re)descobertos na época. Este trabalho de difusão da contracultura lhe valeu o estereótipo de ‘guru da contracultura brasileira’ ”.

Foi desta forma que a historiadora Patrícia Marcondes de Barros descreveu Maciel, que morreu na manhã deste sábado, aos 79 anos, em decorrência de falência múltipla de órgãos. Ele estava internado desde o último dia 26 no Hospital Copa D’Or, em Copacabana, na Zona Sul, vítima de uma doença pulmonar obstrutiva crônica.

+++Os 40 anos do mais subversivo dos tabloides

A historiadora, autora do livro “A contracultura na América do Sol: Luiz Carlos Maciel e a coluna Underground”, organizou também uma cronologia da vida do jornalista e dramaturgo.

Luiz Carlos Ferreira Maciel nasceu em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, em 15 de março de 1938. Aos 17 anos, ingressou na Faculdade de Filosofia da Universidade do Rio Grande do Sul, onde se formou bacharel em 1958. Ainda em Porto Alegre, fez teatro amador, atuando em peças de Pirandello e Tennesse Williams. Ele também dirigiu Os Cegos, de Michel de Ghelderode e Esperando Godot, de Samuel Beckett.

Um ano após sua formatura em filosofia, Maciel ganhou uma bolsa para estudar na Escola de Teatro da Universidade da Bahia. Em Salvador, conheceu Glauber Rocha, João Ubaldo Ribeiro e Caetano Veloso, entre vários outros artistas. Com Glauber, fez seu primeiro papel como ator principal no curta-metragem “A cruz na praça”. Em 1960, Maciel ganhou outra bolsa de estudos, desta vez da Fundação Rockefeller, para estudar direção teatral e roteiro no Carnegie Institute of Technology, em Pittsburgh, nos EUA.

Em 1961, Maciel voltou a Salvador já como professor da Escola de Teatro. Neste período, dirigiu peças como “A morte de Bessie Smith”, de Edward Albee, “Morte e vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto, e “Major Bárbara”, de Bernard Shaw. Neste mesmo ano, publicou seu primeiro livro (de um total de 12), um ensaio sobre Samuel Beckett e a solidão humana. Em 1964, ano do golpe militar, mudou-se para o Rio de Janeiro onde deu aulas de teatro e começou a trabalhar como redator nas redações da revista Fatos & Fotos e no Caderno B, do Jornal do Brasil. Neste período, Maciel escreveu dois roteiros para o cinema: Society em Baby Doll, que também dirigiu, e “O homem que comprou o mundo”, de Eduardo Coutinho.

Luiz Carlos Maciel foi um dos fundadores do Pasquim, em 1968, onde era responsável pela edição de duas páginas dedicadas ao Underground – o que acabou lhe rendendo o apelido de “guru da contracultura”. Em 1970, junto com a maior parte da equipe do Pasquim, foi preso pelo regime militar e passou dois meses encarcerado. Nos anos seguintes, ele editou o semanário de contracultura “A flor do mal”  e a edição brasileira da revista Rolling Stone. O multifacetado Maciel ainda dirigiria espetáculos musicais de artistas como Gal Costa e Erasmo Carlos e se tornaria professor de roteiro.

Durante vinte anos, trabalhou como roteirista da Rede Globo. Em 2003, Maciel publicou um livro reunindo seus conhecimentos na área, O poder do clímax — Fundamentos do roteiro de cinema e TV, relançado este ano. Em 2015, aos 77 anos, apesar dos múltiplos talentos, se viu desempregado pela primeira vez.

“Um tanto constrangido, é verdade, mas sem outro jeito, aproveito esse meio de comunicação, típico da era contemporânea e de suas maravilhas, para levar ao conhecimento público o fato desagradável de que estou sem trabalho e, por conseguinte, sem dinheiro", escreveu ele em sua página no Facebook.

Este ano, as coisas tinham melhorado. Maciel relançou em março  O poder do clímax – fundamentos do roteiro de cinema e TV, lançado originalmente em 2003, e voltou a trabalhar na TV Globo. Ele foi consultor da supersérie “Os dias eram assim”, cuja trama se passa entre os anos 70 e 80.

Luiz Carlos Maciel deixou a mulher, a atriz Maria Cláudia, com quem era casado desde 1976, dois filhos, Lucia Maria e Roberto, e quatro netos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.