Morre aos 49 anos autor de <i>O Fotógrafo</i>, Didier Lefèvre

O livro O Fotógrafo, cujo recente lançamento encantou leitores e críticos de HQ, volta a ser notícia com o comunicado divulgado pela editora Conrad dando conta de que seu autor, o fotógrafo francês, Didier Lefèvre, morreu aos 49 anos, vítima de um ataque cardíaco, na noite entre os dias 29 e 30 de janeiro. Segundo a Conrad, pouco antes de morrer, no dia 27, Lefèvre ganhou o Angoulême, o mais importante prêmio de quadrinhos do mundo, pelo terceiro volume de O Fotógrafo. Lefèvre registrava como fotógrafo as missões da ONG Médicos Sem Fronteiras no Afeganistão. Sua primeira viagem, em 1986, resultou na série em três volumes misturando fotografia em preto-e-branco com a linguagem ágil dos quadrinhos, com fotos de Lefèvre, ilustrações de Emmanuel Gilbert e diagramação de Fréderic Lemercier. Lefèvre esteve ainda em países como Libéria, Kosovo, Sri Lanka e Camboja, sempre acompanhando as equipes da organização Médicos sem Fronteiras. Foi de Gilbert a idéia de contar a aventura do amigo fotógrafo, por meio de histórias em quadrinhos misturadas a Fotografias, como ele mesmo contou em entrevista à repórter Patrícia Villalba do Estado. Leia em seguir a reportagem: ?Somos amigos há muito tempo e ele ficou sabendo dessa minha primeira viagem ao Afeganistão?, explica Lefèvre, numa rápida entrevista ao Estado, direto de Kosovo, para onde partiu há algumas semanas em outra aventura, sempre ao lado dos Médicos sem Fronteiras. A organização, internacional e não-governamental, presta ajuda humanitária em locais de conflito armados, catástrofes, epidemias e demais calamidades. ?Foi ele quem teve a idéia de misturar desenhos com as minhas fotos.? Obra rica em detalhes sobre a fascinante cultura afegã, O Fotógrafo pode ser visto como um tratado sobre a fotografia de guerra. Ou ainda um outro tratado, sobre choque de realidade. Mais, pode nos transmitir um pouco sobre os heróicos médicos que saem mundo afora salvando vidas nas mais difíceis Condições. Nesse último aspecto, é um livro especial porque conta os bastidores das caravanas clandestinas que os médicos organizaram para cruzar a fronteira do Paquistão, para ajudar as vítimas da ocupação russa. Até hoje aquelas viagens são chamadas por eles mesmos de míticas por refletirem o espírito da organização: os médicos atravessaram as montanhas a pé, carregando medicamentos e equipamentos em burros e cavalos. Mas se nada disso foi suficiente para amolecer o coração do leitor mais exigente de histórias em quadrinhos, nos resta falar dos desenhos incríveis de Gilbert - de certa forma, lembram os do clássico Tintin, do belga Hergé, para falar de outro repórter -, que foram perfeitamente colados às fotos em preto-e-branco de Lefèvre. A arte, pintada e diagramada por Frédéric Lemercier, serve ao roteiro de Gilbert, que tem estrutura simples e é bem-humorado, apesar do tema espinhoso. A viagem começa em julho de 1986, quando Lefèvre diz ?adeus ao mundo? e parte de Paris. Tinha, então, 29 anos. ?Peshawar é bonita. Tudo é forte, os cheiros são fortes, os ruídos são fortes?, conta Didier no livro. ?A multidão, quando presente, é enorme. As horas do meio-dia são acachapantes. Vestidos como ocidentais, a gente não agüenta. Quente demais.? Lefèvre prefere falar das coisas do cotidiano, a tocar diretamente em questões de política internacional - numa das cenas mais impressionantes, os médicos operam um câncer numa mesa de cirurgia improvisada. A opção pelo estilo ?gente como a gente? é a peça fundamental na montagem de um panorama sobre o povo afegão sem frescuras, paternalismo ou estereótipos. Logo que chega ao Paquistão, o fotógrafo, quem imaginaria, vai a um alfaiate, antes de encarar a viagem a pé ao Afeganistão. ?Ele toma minhas medidas. Para amanhã, vai me confeccionar um enxoval que contém: uma calça, uma camisa bem comprida, um colete, touca, lenço, sapatos e a famosa manta afegã, o patu. Aqui não se usa cueca?, revela ele no livro. Gilbert escolheu bem entre as tantas viagens do amigo: de tão fascinado que ficou com o Afeganistão, Lefèvre voltaria oito vezes. ?Aquela não foi minha primeira experiência de guerra, vou freqüentemente à África, especialmente à Eritréia e Somália. Mas foi minha primeira grande viagem a um país em guerra e minha primeira vez no Afeganistão, país que me fascinou.? Didier Lefèvre deixa mulher e dois filhos. O Fotógrafo - (Conrad, R$ 46; 88 páginas) sai agora em português, em três volumes de capa dura.

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