Morre Abdias do Nascimento

Internado há um mês, dramaturgo, político e escritor de 97 anos lutou pelos direitos dos negros

Wilson Tosta e Tiago Rogero / RIO, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2011 | 00h00

Um dos pioneiros do movimento de luta contra a discriminação racial no Brasil, o ator, diretor, dramaturgo e político Abdias do Nascimento morreu ontem no Hospital Federal dos Servidores, no Rio de Janeiro, aos 97 anos, de insuficiência cardíaca - era hipertenso e diabético. Perseguido pela ditadura, precisou deixar o País no fim dos anos 60 e, depois de voltar ao Brasil, engajou-se na militância partidária, pela legenda do PDT, tendo sido deputado e senador. Sempre que tinha oportunidade, denunciava a situação de inferioridade social dos negros brasileiros. Abdias morreu após cerca de um mês de internação.

Nascido em Franca (SP) em 1914, Abdias é considerado responsável pela criação do Teatro Experimental do Negro (TEN), atuante no Rio de Janeiro de 1944 a 1968 e considerada a primeira companhia teatral brasileira aberta a promover a inclusão do artista afrodescendente. Antes disso, começara sua militância pela causa da igualdade racial no Brasil - tabu na época - aos 16 anos, em 1930, quando se integrou à Frente Negra Brasileira.

Depois de participar do 1º Congresso afro-campineiro, que discutiu como resistir à discriminação no Brasil, Abdias, no início dos anos 40, foi a Buenos Aires, onde assistiu a O Imperador Jones, de Eugene O"Neill, cujo protagonista negro era vivido por um branco maquiado. A partir desse episódio, passou a refletir sobre a mesma situação no teatro brasileiro e começou a pensar a criação de um teatro para valorizar os artistas negros brasileiros. De volta ao Brasil após um período estudando no Teatro del Pueblo, teve de esperar para colocar a ideia em prática: foi preso por crime de resistência, anterior à viagem, e levado ao Carandiru. Mesmo ali, não cessou sua militância, criando o Teatro do Sentenciado.

O TEN foi aberto com apoio de outros artistas e intelectuais, ministrando cursos de interpretação e até aulas de alfabetização e introdução à cultura geral, para formar atores negros. O espetáculo de estreia foi o mesmo O Imperador Jones, em 1945. Depois, como ator, participou de mais duas peças de O"Neill: Todos os Filhos de Deus Têm Asas e O Moleque Sonhador. Em 46, na comemoração de dois anos do TEN, protagonizou um trecho de Otelo, de Shakespeare, com Cacilda Becker.

Ironicamente, a discriminação o atingiria em 1948, quando com o nome profissional como ator em ascensão foi cogitado por Nelson Rodrigues para viver Ismael, o protagonista de Anjo Negro. Nenhum teatro consagrado admitiu ter uma peça cujo ator principal seria negro. O "grande negro de ventas triunfais" sonhado por Nelson teve de ser interpretado por Orlando Guy, com o rosto tingido.

Sob o regime militar, exilou-se de 1968 a 1978, atuando como conferencista, professor e escritor. Entre seus livros estão Sortilégio, Dramas Para Negros e Prólogo Para Brancos, O Negro Revoltado. De volta ao Brasil, engajou-se na política. Foi deputado federal de 1983 a 1987 e senador da República de 1997 a 1999, ligando-se fortemente ao Movimento Negro Unificado (1978). Em 2006, em São Paulo, instituiu o dia 20 de novembro como a data oficial da consciência negra. Recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Brasília.

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