Morre a poeta e tradutora Dora Ferreira da Silva

Morreu hoje à tarde a poeta e tradutora Dora Ferreira da Silva. O velório será realizado no cemitério do Araçá, a partir das 20h30 e o enterro será amanhã, no cemitério da Consolação, às 9 horas. Ela estava internada há duas semanas, devido a complicações após uma cirurgia para a retirada da vesícula.Dora tem uma longa trajetória de mais de 50 anos dedicados à poesia. Autora de livros como Andanças, Talhamar, Retratos de Origem, Poemas da Estrangeira e Hídrias. Foi três vezes ganhadora do Prêmio Jabuti.Recebeu também o prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, em 2000, por sua obra Poesia Reunida, editado pela Topbooks.Como tradutora, destacam-se seus trabalhos com autores como Rilke, Saint-John Perse, San Juan de la Cruz, Hörderlin e Jung. Também atuou como editora, fundando a revista Diálogos, juntamente com seu marido, o filósofo Vicente Ferreira da Silva. Depois, criou a revista Cavalo Azul, para difusão da poesia. Atualmente, funcionava em sua casa, um Centro de Estudos de Poesia com o mesmo nome.Dora conquistou o Prêmio Jabuti 2005, um dos mais prestigiados da literatura brasileira, com o livro Hídrias. Leia abaixo a crítica do filósofo Gilberto de Mello Kujawski especialmetne para o Estado, em 15 de maio de 2005:Dora Ferreira da Silva volta a chamar a atenção com HídriasDora Ferreira da Silva, trabalhando na solidão e no silêncio, totalmente avessa à mundanidade literária, distante das rodinhas e dos conchavos intelectuais, mesmo assim, conquistou seu lugar na república das letras, legitimada pelo reconhecimento unânime de todos os que amam verdadeiramente a poesia. Começando como tradutora inspirada das obras de Rilke e Holderlin, depois de São João da Cruz e C.G.Jung, firmou sua vocação e impôs seu estilo vigorosamente pessoal, helenizante, com uma escalada de lançamentos, como Andanças, Talhamar, Retratos da Origem, Poemas da Estrangeira, construindo uma obra poética enfeixada em Poesia Reunida, editado pela Topbooks em l999, obtendo depois o prêmio Machado de Assis concedido pela Academia Brasileira de Letras, no ano seguinte (2000). Com seu novo lançamento, Hídrias (Odysseus, 2004), Dora chama novamente a atenção da crítica e dos leitores. O livro vem analisado por um estudo de rara penetração hermenêutica, devido a Luiz Alberto Machado Cabral, que explica: ?Hídrias, como o nome grego indica, são vasos de cerâmica destinados a recolher e a conter água (hýdos), elemento de importância fundamental na vida de qualquer povo de todos os tempos, mas que na civilização helênica adquiriu profunda significação sagrada, chegando mesmo a ser elevado à categoria de princípio constitutivo do universo?. Segundo José Paulo Paes, a poesia de Dora Ferreira da Silva ?ronda o tempo todo as fronteiras do sagrado?. A busca do sagrado por Dora e seu marido Vicente Ferreira da Silva (1916-1963), tem isso de original e totalmente inédito em nossa cultura de raízes judaico-cristãs e forte embasamento contra-reformista: é a procura do sagrado na esfera do paganismo. Freqüentemente, esquecemo-nos de que o sagrado nunca foi monopólio do judaísmo ou do cristianismo, ou de qualquer religião monoteísta. O solo do sagrado, no qual nossa cultura lança as primeiras raízes, começou na Grécia, com o politeísmo do qual judeus e cristãos tanto se envergonham, e consegue expressão, ou melhor, ganha hierofania, na mitologia grega, com sua florada de deuses e deusas aurorais ocupados em suas tramas arquetípicas pautando a conduta dos humanos no curso da vida e da morte. Aos olhos da poetisa não existe fronteira entre os deuses pagãos e o Deus e os santos cristãos. Paganismo e cristianismo observam perfeita continuidade na urdidura prodigiosa do unus mundus. Nas palavras insubstituíveis de Constança Marcondes César, captando o ?insight? total da inspiração da autora, ?na poesia de Dora o poema é a reativação dos mitos: contém a força invocada, sopro do espírito?. A Grécia antiga visitou a poesia brasileira no arcadismo e no parnasianismo. O bucolismo e o pastoralismo sedativos de Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga, ou a Hélade impassível, escultural e olímpica de Olavo Bilac. Com a poesia de Dora insinua-se em nossas letras a Grécia órfica, inspirada não no culto da forma perfeita, como em Bilac, mas na proximidade e na pulsão dos deuses renascidos das cinzas dos esconjuros e do esquecimento.

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