TATIANA CONSTANT/Estadão
TATIANA CONSTANT/Estadão

Morre Danuza Leão, modelo que marcou época e colunista que analisou o comportamento humano

Danuza, que tinha 88 anos, sofria de enfisema pulmonar e estava internada em uma clínica no Rio de Janeiro

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2022 | 06h09
Atualizado 23 de junho de 2022 | 17h37

Morreu no fim da noite desta quarta-feira, 22, a ex-modelo, promoter, colunista, apresentadora de TV e escritora Danuza Leão. Vítima de enfisema pulmonar, sua morte foi provocada por uma insuficiência respiratória. Ela estava com 88 anos e era paciente da clínica São Vicente, no Rio. Símbolo da cultura carioca, Danuza foi a primeira modelo brasileira a estrear nas passarelas do exterior.

Danuza viveu vários grandes momentos. Quando jovem, era conhecida como modelo e também pela organização de festas badaladas. Afinal, levava uma vida pessoal que era alvo de interesse geral. Além de ser irmã da cantora Nara Leão, foi casada com o jornalista Samuel Wainer, fundador do jornal Última Hora, com o escritor e colunista Antônio Maria e com o também jornalista Renato Machado, que fez carreira na televisão.

Era amiga também de personalidades importantes do século 20, como Di Cavalcanti e membros da Bossa Nova - gênero que ela viu nascer em seu próprio apartamento em Copacabana.

Ao encerrar a fase das passarelas, tornou-se colunista de comportamento e estilo de vida, trabalhando no Jornal do Brasil e na Folha de S.Paulo, além de contribuir para o caderno Ela, de O Globo.

O sucesso a levou à literatura. Um de seus dez livros publicados se tornou best-seller, a autobiografia Quase tudo, lançada em 2005. Antes disso, em 1992, ela emplacou a obra Na Sala com Danuza. E,doze anos depois, veio uma nova edição: Na Sala com Danuza 2. Já no cinema, Danuza participou de um clássico brasileiro, o filme Terra em Transe, com direção e roteiro de Glauber Rocha.

Desde jovem, Danuza já indicava que seguiria uma carreira de sucesso. Nascida em Itaguaçu, no Espírito Santo, passou antes por Cachoeiro do Itapemirim até chegar, aos 10 anos, no Rio de Janeiro. Aos 14, foi descoberta por um olheiro e convidada para um baile no Copacabana Palace. Foi um dos destaques da festa, apareceu pela primeira vez na imprensa e ainda ganhou uma passagem para Paris. Mas não foi naquele momento, só três anos depois, quando já estava morando na capital francesa, como modelo de Jacques Fath. Era sabido também que era amante do ator Daniel Gélin, seu primeiro grande amor, como identificou em seus livros biográficos.

"Perdido, casado e cheio de charme e sedução, daqueles a quem não se resiste - e não resisti. Toda mulher deveria conhecer um homem assim na vida. Menos nossas filhas, claro", escreveu ela sobre Gélin, com sua peculiar ironia.

Foi um período de muita badalação, marcada, por exemplo, pela primeira experiência com heroína. Logo voltou ao Brasil e, aos 19 anos, aceitou o convite insólito de um amigo e foi conhecer Samuel Wainer, que estava preso. Mesmo com a diferença de idade (ele estava com 41), Danuza se apaixonou pelo jornalista, o que provocou uma reviravolta em sua vida.

"Apresentei Samuel à vida glamourosa e sofisticada, e ele me apresentou ao poder", registrou ela. De fato, durante o segundo governo de Getúlio Vargas (1951-54), Wainer circulava com desenvoltura dentro do poder. Seu jornal, Última Hora, era a principal arma de defesa getulista contra os ataques de Carlos Lacerda, jornalista que comandou uma campanha contra Wainer alegando que, nascido na Bessarábia (o que não era verdade), não poderia ser proprietário de um jornal brasileiro.

Em meio a esse tumulto, Danuza engravidou e nasceu Deborah, em 1954, logo apelidada de Pinky por causa de sua pele rosada.

Em 1955, nasceu Samuel Wainer Filho, apelidado de Samuca, e em 1960, Bruno. "Não fui boa mãe. Nenhuma mãe se sente boa. E, se se sente, cobra dos filhos. Eu jamais cobrei. Acho que deixar meus filhos livres foi uma maneira de ser boa mãe", avaliou a própria maternidade.

Apesar de viver um casamento feliz, Danuza se apaixonou em 1960 por um colunista da Última Hora, Antônio Maria, homem sedutor, de "personalidade exuberante" e um dos principais cronistas do País. Foram "quatro anos de paixão intensa", que terminou graças ao ciúme incontrolável de Maria.

Foi quando se reaproximou de Wainer que, graças à perseguição da ditadura militar, vivia exilado em Paris. Moraram em apartamentos separados. Afinal, após a tumultuada relação com Antônio Maria, Danuza decidiu que teria uma vida livre.

"Ser livre é fazer só o que eu quero. Eu posso escolher ser escrava de um homem, mas é uma opção. O problema é que todo relacionamento exige concessões. Sempre há um dos dois que manda no controle da TV. Eu não quero que ninguém mande no meu controle", observou ela que, em 1972, iniciou o namoro com Renato Machado, que resultaria em seu terceiro casamento.

Naqueles anos 1970, Danuza se destacou na noite carioca como directrice, termo usado para a pessoa responsável por atrair gente, em especial famosos, a locais badalados, como as boates Regine's e Hippopotamus.

Aos poucos, foi assumindo a escrita como forma de trabalho, iniciando a colaboração a jornais. A morte de Samuca, em 1984, foi um baque profundo. Repórter da TV Globo, ele foi vítima de um acidente de carro quando voltava com a equipe de Macaé, onde fora cobrir a morte de 14 colegas por causa da queda de um avião que os levaria a uma plataforma de petróleo.

A morte de Samuca está inserida no que Danuza chamava de "período de trevas" de sua vida, como descreveu em seus livros: além do filho, perdeu Wainer em 1980, o pai em 1983 (um suicídio planejado em detalhes), a irmã Nara Leão, nove anos mais nova, em 1989 (tumor no cérebro diagnosticado dez anos antes), e a mãe em 1993.

A experiência de vida forneceu material para suas colunas, marcadas por assuntos como as relações entre pais e filhos e homens e mulheres, bem como questões relacionadas a conflitos geracionais. Danuza Leão deixou dois filhos, a artista plástica Pinky Wainer e o empresário cinematográfico Bruno Wainer.

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