Morre a cantora Marlene, estrela da era do rádio no Brasil

Cantora, de 89 anos, estava internada por conta de uma queda

Luiz Carlos Merten, Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

13 Junho 2014 | 18h33

Aos 89 anos, morreu nesta sexta-feira, 13, à tarde a cantora Marlene, estrela da era do rádio no Brasil. Ela tinha sofrido uma queda em casa e o quadro se agravou. Marlene estava internada havia alguns dias na Hospital Casa de Portugal. O corpo será velado no teatro João Caetano.

“O ferimento da perna se agravou e ela ficou imobilizada, só se locomovia de cadeira de rodas. Ela queria voltar a trabalhar, fazer uma peça. Era uma amiga muito querida. Tinha uma vontade indômita de trabalhar. Era um dos mitos da cultura brasileira e muito querida pelos artistas”, disse o compositor Hermínio Bello de Carvalho, seu amigo de longa data.

A cantora faria 90 anos em novembro e morava em Copacabana com o filho Sérgio. Filha de italianos nascida em São Paulo, Victória Bonaiutti de Martino (depois Delfino dos Santos, ao se casar com o ator Luis Delfino), adotou o nome artístico em homenagem à atriz alemã Marlene Dietrich. Foi uma das cantoras mais populares do Brasil nos anos 1940 e 50.

Fez carreira no Rio e, com Emilinha Borba (1923-2005), viveu uma rivalidade que enlouquecia as fãs nos auditórios das rádios. Em 1949, a Rádio Nacional promoveu um concurso para escolher a Rainha do Rádio. Emilinha era considerada a vencedora antecipada, mas Marlene terminou chegando em primeiro lugar, com Ademilde Fonseca em segundo. Emilinha ficou em terceiro e isso acirrou os ânimos das fãs, que eram chamadas de ‘macacas de auditório’. Houve até quebra-quebra durante programas da época.

Marlene gravou mais de quatro mil músicas – muitas delas grandes sucessos no carnaval –, foi atriz e ícone da moda, considerada moderna e arrojada. Entre seus sucessos se contam Apito no Samba, Brigas Nunca Mais, É Madrugada, Eva, Mora na Filosofia, O Lamento da Lavadeira. E, assim como a rival Emilinha era favorita da Marinha, Marlene foi a favorita da Aeronáutica. Nos anos 1970, participou de novelas (como Bandeira 2) e peças de teatro (como A Ópera do Malandro).

Fez 11 filmes e, em 1951, surgiu o mais prestigiado entre eles. Marlene participou, ao lado do então marido Luís Delfino, do clássico Tudo Azul, de Moacir Fenelon, um dos fundadores da Atlântida. O filme conta a história de um homem frustrado que atenta contra a própria vida. Depois de tentar sem êxito ser compositor, ele se descobre num outro mundo, completamente diverso do que tem sido sua vida, até então. Nesse universo, ele encontra Marlene e, numa cena que antecipa o neorrealismo de Nelson Pereira dos Santos em Rio 40 Graus e Rio Zona Norte, Marlene canta seu hit Lata d’Água, enquanto Fenelon faz uma espécie de documentário verista, com câmera na mão e tudo, sobre a favela.

Recuperado pelo Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro em 2001, Tudo Azul contribuiu para que Marlene voltasse com força. Não foi a primeira vez em sua carreira. Após a grande fase do rádio, ela teve diversos revivals, participando de espetáculos que viraram discos celebrados pelos críticos, como Botequim, em 1973, e Te Pego pela Palavra, no ano seguinte.

Atualizado às 19h10.

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